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  • Os momentos e movimentos do conceito de classes em Marx: uma aproximação teórica.

    Os momentos e movimentos do conceito de classes em Marx: uma aproximação teórica.

    O conceito de classes sociais e suas diferentes abordagens tem sido central na diferenciação de analises e projetos políticos. Certamente a razão de ser dessa centralidade está no lugar que o conceito ocupa na articulação entre os grandes movimentos teóricos, isto é, a articulação entre estrutura, sujeito e transformação. Para o contexto atual o tema parece ter relevância tanto às grandes análises globais – como faz Göran Therborn, Perry Anderson, Mike Davis e David Harvey, para ficar entre os mais conhecidos –, quanto para o atual debate nacional entorno do lulismo, e a base social sobre a qual ele incide – destacam-se os estudo de André Singer (2012), Ruy Braga (2013) e Jessé de Souza (2010).

    Dito isso, o presente texto pretende discorrer sobre o conceito de classe social na abordagem marxiana e tomando como referência mais três autores, quais sejam, Thompson, Anderson e Therborn. Evidentemente, nos limites desse trabalho, não houve condições de entrar nos debates contemporâneos, sobretudo no Brasil, tarefa que deixamos para uma próxima oportunidade.

    Um conceito em movimento

    Seguindo os passos do estudo de Sedi Hirano (1974) sobre o conceito de classe social em Marx e Weber, e do artigo de Mauro Iasi (2007), dedicado ao tema, sabe-se que tratar de classes sociais em Marx trás algumas dificuldades iniciais. A primeira delas, é que não há em Marx um estudo sistemático, teoricamente desenvolvido, exclusivo para o conceito de classe social. O último capítulo do livro III de “O Capital”, seria justamente para tratar desse tema, como sugere seu título “As Classes”. No entanto, dramaticamente, o falecimento do autor, deixou o manuscrito interrompido logo de início, sendo completamente insuficiente para elucidar o que o título anuncia. Em segundo, aparentemente, as referências encontradas em suas obras, são esparsas, muitas vezes genéricas, outras abstratas e outras ainda marcadas pela especificidade da análise de uma determinada conformação social. Todavia, essa “diversidade” de referências não é sinal de impossibilidade ou fragilidade teórica da teoria marxiana. Ao contrário, através da leitura e compreensão do método empregado por Marx na elaboração de seus principais conceitos é possível seguir os diferentes momentos de elaboração do conceito de classes sociais. Isto é, é possível identificar uma conceituação que parte da manifestação aparente do fenômeno, segue aprofundando a própria maneira como esse conceito é produzido (essência) e, portanto, para o que essa mesma aparência esconde, e retorna à aparência do fenômeno agora revelado “por inteiro”. Assim, o que se quer defender é que apesar da ausência de um estudo exclusivo de Marx para tratar do conceito de classes, é completamente viável extrair do conjunto de sua obra os movimento e momentos que envolve a conceituação de classes sociais.

    Vale dizer que justamente por ser um conceito que deve ser apreendido através de seus momentos e movimentos, e não possui portanto uma definição formal – como aliás, é característico de universo conceitual marxiano –, qualquer empreitada exegética irá cair numa teia insolúvel de ambiguidades e aparentes contradições formais. O próprio conceito de classes aparece ora como sujeito histórico, ora como sujeito político e limitado, ora como mero aglomerado de indivíduos em um determinado lugar na produção e etc… Tomados de maneira estanque e, sobretudo retirados dos contextos das obras, esses recortes exegéticos podem expressar ambiguidade e inconsistência, que, na verdade, devem ser interpretados como momentos próprios ao conceito. Nas palavras de Iasi:

    (…) a dialética de Marx não se reduz ao movimento que quer captar no fenômeno, mas que tal dialética se expressa no movimento próprio dos conceitos, de forma que eles se referem a momentos de aproximação e aprofundamento da análise que parte da aparência até a essência, da essência menos profunda até a mais profunda, por vezes de volta à aparência carregando os conteúdos conquistados até então. Disso resulta que o leitor desavisado pode confundir uma dessas aproximações com “o conceito” definitivo de um determinado aspecto ou coisa a ser estudada” (IASI, 2007: 106).

    Por essa razão furtar-se-á aqui de fazer um processo de citações exaustivas de trechos da obra de Marx, pois julga-se mais producente a exposição sintética dos principais momentos do conceito que queremos tratar. As obras de Marx e Engels que se têm como principais referências para tal são: Contribuição a Crítica da Economia Política (2008), A ideologia Alemã (2011), O Capital (2010), Manifesto do Partido Comunista (2007) e os Grundrisse (2011).

    O melhor lugar para começar, então, a definição de classes sociais em Marx parece ser a caracterização desse conceito como um conceito historicamente determinado, isto é, que diz respeito em última instância ao modo de produção capitalista e deve ser entendido como próprio para a análise desse.

    Hirano (1974:81) na sua busca por esclarecer o que Marx entende por classe social, seleciona inicialmente três conjuntos de elementos para captar o conceito, os elementos condicionais, definidores e diferenciais. O primeiro desses, o elemento condicional, é justamente a desagregação do modo de produção feudal e a emergência do modo de produção capitalista, e em conseguinte, a formação de comunidades de interesses polarizadas. A ênfase de Hirano está na mudança de paradigma de estamento, o qual corresponde a sociedade feudal, para o de classes sociais, o qual corresponde a sociedade burguesa moderna. A diferença está justamente na estrutura social sob a qual se dá as relações sociais de produção, e a maneira como essas relações determinam os conteúdos, identidades, consciências e possibilidades políticas de grupos que ocupam posições diferentes na produção da vida. Assim, junto com estamento está um conjunto de categorias como senhor, servo, vassalo, feudo, nobreza, etc., que dizem respeito estritamente a sociedade feudal. Por sua vez, classe social está acompanhada das categorias que dizem respeito a sociedade burguesa moderna, como trabalhador livre assalariado, burguês, proletariado, operário, capital, trabalho, cidade, campo e etc. Em outras palavras, o conceito de classes sociais é intrínseco a sociedade capitalista. O segundo elemento, o elemento definidor, é a produção de idênticas condições, idênticas antíteses e idênticos interesses, os quais resultam em todas as partes da sociedade moderna em idênticos costumes, e a posterior conversão – como possibilidade política – dessa condição em identidade de classe. Ou seja, o próprio desenvolvimento do modo de produção capitalista produz as condições de classe, na qual os indivíduos estão determinados, enquanto ser social, a terem identidades comuns. Em terceiro e por fim, o elemento diferencial, é justamente a posição que os indivíduos ocupam nos diferentes setores da produção social da vida e em seus vários desdobramentos, e diferentes ramos de produção, resultantes da divisão social de trabalho. Essas diferentes posições determinam diferentes classes sociais. É a partir desse elemento diferencial que a divisão de classes entre burgueses – os proprietários dos meios de produção – e proletários – os que tem como bem apenas sua própria força de trabalho – deve ser entendida. Não obstante, há diferentes posições, e, portanto, possibilidades de identidades distintas, dentro da própria burguesia e do proletariado, sendo essa primeira distinção apenas uma diferenciação geral.

    Seguindo essa análise pode-se dizer, então, que o conceito de classes sociais é definido em Marx como um produto do modo capitalista de produção, no qual os indivíduos estão alocadas em condições comuns, as quais produzem identidades, determinadas pelo local que estão inseridos na divisão social do trabalho. Diferentes posições na produção podem possibilitar diferentes identidades. Nesse sentido, o conceito de classe também é relacional, pois uma classe existe e se diferencia em relação a outra classe. Estas diferentes identidades, por sua vez, abrem possibilidades de organização e posicionamentos políticos diferentes que dizem respeito ao conjunto da sociedade e ao papel que os indivíduos de cada classe, querendo ou não, cumprem no devir social.

    A classe em movimento

    Essa última possibilidade – da organização e ação política – nos dirige para um outro momento do conceito de classes sociais, no qual a ideia de consciência de classe ou projeto societário inerente a classe está colocado. A questão aqui é dupla, pois envolve a potencialidade do lugar que a classe, ou a fração de classe, ocupa no interior do modo de produção, e sua respectiva capacidade de organização política e social. Em relação ao lugar na produção, por exemplo, os trabalhadores fabris estão em um lugar do modo de produção capitalista no qual operam cotidianamente tarefas que são fundamentais para a produção e acumulação de capitais. Quando esse agrupamento se organiza e faz uma greve, por uma questão imediata como aumento salarial ou melhores condições de trabalho, ele leva potencialmente o conjunto da sociedade a se movimentar com eles – afinal quando esses trabalhadores cruzam os braços está interrompido o fluxo de produção de capital e a extração de mais-valia, fato que toca centralmente a economia capitalista. Justamente por estar em um lugar central para a produção, as greves dos trabalhadores fabris raramente duram mais que algumas horas, quando muito fazem paralisações de um ou mais dias – e quando grandes e potentes, tais greves, são marcas de momentos históricos e de transformação social, como as greves 1978-79 no Brasil. Em contraste, por exemplo, quando os trabalhadores da educação pública, como os professores das escolas de ensino médio, cruzam os braços, o efeito dessa paralisação é muito menor, pois o lugar que os professores ocupam na produção afeta de maneira menos imediata a sociedade, apesar de evidentemente afetar a vida de milhares ou mesmo milhões de crianças e adolescentes que não irão para as aulas. Nesse caso, é comum que as greves durem muitos dias, quando não muitos meses. Veja como, nesses casos ilustrativos, os diferentes lugares na produção carregam potencialidades diferentes. No entanto, vale ressaltar que essa diferença é potencial, e não quer dizer que, enquanto indivíduos, de modo geral, os professores sejam diferentes dos trabalhadores fabris, pelo contrário, eles tem potencialmente a mesma identidade de trabalhadores assalariados, ou seja, proletários. A ênfase aqui está nas potencialidades inerentes as diferentes posições no modo de produção capitalista. Todavia, é bom frisar que não está determinado pelo lugar da produção qual o projeto político que esses grupos terão, mas apenas suas potencialidades. O que determina o projeto político das classes sociais é sua capacidade de fazer-se enquanto ator político de um determinado contexto, e até mesmo colocar-se como sujeito histórico em um momento revolucionário e de convulsão social (Thompson, 1987). Obviamente, nesse fazer-se está contido as potencialidades inerentes ao lugar na produção que a classe se encontra, mas o rumo que essa classe vai tomar está no plano da contingência, no qual a disputa entre organizações e o embate ideológico é o terreno mais comum.

    Dito isso, é possível ainda distinguir dois momentos do movimento das classes sociais em seu caminho para a ação política. Grosso modo, a classe enquanto aglomerado de indivíduos que compartilham de uma mesma situação, por exemplo, da exploração do trabalho, mas que não se organizam para além de suas questões imediatas, é identificada em um momento da classe em si – limitada a sua imediates e não se colocando como sujeito histórico – o caso, por exemplo, de um sindicalismo burocratizado que “administra” as campanhas salariais apenas para manutenção da situação colocada. Por outro lado, quando esses indivíduos que compartilham dessa mesma situação se organizam entorno de uma proposição política de superação e transformação da ordem social a qual estão submetidos – lutando contra a exploração e, por exemplo, defendendo uma ordem socialista – é o momento da classe para si – quando esse agrupamento se movimenta negando, pela transformação social, sua própria condição de classe.

    A aposta de Marx, foi a de que o desenvolvimento da sociedade capitalista levaria a uma polarização cada vez maior entre burguesia e proletariado – este último tendo como centro político, sua fração operária industrial. Certamente para quem vivenciou as revoluções de 1848, com levantes proletários nos centros urbanos dos principais países europeus, essa foi uma aposta mais que plausível – foi acertada. Göran Therborn (2012) em recente artigo sobre as classes sociais nos dias atuais, caracteriza o século XX, como a era da classe trabalhadora, pois em todos os países o proletariado com suas especificidades nacionais levantou-se e se estabeleceu como ator político, sendo crucial para diversos avanços civilizatórios, a contragosto das elites burguesas.

    A classe imobilizada

    Posto o que já desenvolvemos até aqui, queremos destacar ainda uma ambivalência que surgiu nas diversas apropriações e interpretações sobre o conceito de classes sociais em Marx. De modo geral, essa ambivalência está no centro do debate teórico sobre estrutura e sujeito. Por um lado, muitas interpretações tenderam a aprisionar o conceito de classes sociais como determinado absolutamente pela estrutura, como se apenas a análise da posição de grupos de indivíduos em determinado lugar da produção fosse suficiente para determinar o papel histórico, a consciência e a ação política que seguiria. Esse tipo de interpretação ou apropriação, a qual podemos chamar de determinista ou economicista, foi comum ao que ficou conhecido como marxismo ortodoxo, por exemplo. E teve também sua expressão filosófica na produção de Althausser (1980), para quem o conceito de classe social poderia ser praticamente descartado, pois para ele a estrutura social se auto-determina independentemente dos sujeitos – o movimento do capital e sua auto-contradição, levaria a superação da própria sociedade, transformação na qual as classes não serão sujeitos. Por outro lado, muitas vezes, mas não só, como resposta ou desdobramento dos economicistas, surgiu e se estabeleceu uma visão, por sua vez, voluntarista ou subjetivista, na qual as classes sociais independentemente da estrutura social – no caso, da posição na produção – se auto determinariam. Certas correntes pós-modernas ou pós-estruturalistas identificadas por Anderson (1985), são exemplos – junto a essa categoria estão também um certo tipo de “anarquismo”, que coloca o indivíduo no centro de todas as determinações sociais, ou seja, independente de toda determinação social.

    Evidentemente, nem os economicistas tampouco os voluntaristas resolvem bem as questões inerentes a relação entre sujeito e estrutura. Vale dizer, que em ambos os casos o problema não é a ênfase nas determinações da estrutura ou na independência do sujeito, mas a anulação das determinações inerentes a um e a outro. Tal anulação leva invariavelmente a um certo lugar comum, pois se não há sujeito não é possível pensar estrutura, e se não há estrutura não é possível pensar o sujeito. Ao fim e ao cabo, essas interpretações apenas deslocam a questão. No caso da economicista, a estrutura – os movimentos do capital, por exemplo – é elevado ao status de sujeitos da história; ou o indivíduo e sua subjetividade (sua psiquê) é elevado à estrutural sobre a qual operam escolhas. Ou seja, o problema quando negado de forma absoluta, se recoloca em outro patamar, mesmo que oculto em uma narrativa de negação.

    A classe no movimento do real

    Perry Anderson, em seu famoso livro “A Crise da Crise do Marxismo”, enfrenta com sagacidade os estruturalista e pós-estruturalistas, nas suas tentativas de relacionar sujeito e estrutura, e defende que:

    longe de esclarecer ou decodificar as relações entre estrutura e sujeito, [essas correntes de pensamentos] levaram de um absolutismo retórico da primeira e a um fetichismo fragmentado do segundo, sem sequer avançar uma teoria acerca das suas relações. Tal teoria, historicamente determinada e setorialmente diferenciada, só poderia ser desenvolvida considerando-se dialeticamente a sua interdependência (Anderson, 1985: 65).

    Ao nosso ver, é justamente o conceito de classe, compreendido como um conceito em movimento, com diferentes momentos, uma ferramenta teórica capaz de superar a ambivalência entre o voluntarismo e o economicismo: classe social é o elo possível entre sujeito e estrutura em sua interdependência dialética. Ao que vimos até aqui, esse conceito permite no interior de uma análise das estruturas sociais, apreender o sujeito, o qual não está absolutamente determinado, mas se determina a partir de um contexto específico e da particularidade que a própria situação de classe (o lugar na estrutura) lhe fornece. Além disso, esse sujeito está jogado à contingência histórica dos processos políticos de organização e ação, podendo, como ocorre em diversos momentos, surpreender as expectativas estruturais, e apontar caminhos inesperados.

    Nesse sentido, o esforço teórico se bate com um problema prático, a análise pormenorizada de momentos históricos específicos. Pois é justamente na análise da conjuntura específica, isto é, no contexto mesmo que a ferramente analítica classes sociais se revela potente, ao apreender a devida relação entre sujeito e estrutura. Em seu artigo seminal, “The Origins of The Present Crisis”, o próprio Perry Anderson opera dessa forma, ao “desmentir” e desvelar os mitos sobre a formação capitalista na Inglaterra e fornece subsídios para o então partido trabalhista inglês pensar o socialismo. Ao lado dessa produção, podemos colocar o próprio “XVIII Brumário de Luiz Bonaparte”, de Marx, ou os textos conjunturais de Lenin como “Quê Fazer?”.

    Recentemente na produção brasileira, uma série de trabalhos levantaram a bola das classes sociais para analisar o período recente. Surgiram definições variadas que pretendem justamente penetrar na sociedade brasileira e captar suas especificidades. Subproletariado, precariado, nova classe médica, nova classe trabalhadora, batalhadores, entre outras definições que precisam ser detidamente analisadas e postas em confronto para fazer avançar a análise de nossa realidade. Sem dúvida, o período que vivemos pede análises profundas sobre a atual conformação social da sociedade brasileira. Tarefa pendente.

    Bibliografia:

    ALTHUSSER, Louis et alli. Ler o Capital. Rio de Janeiro: Zahar editores, 1980.

    ANDERSON, Perry. A crise da crise do Marxismo: Introdução a um debate contemporâneo. São Paulo: Brasiliense, 1985.

    ________________. The Origins of The Presente Crisis. In: New Left Review, n. 23, janeiro-fevereiro, 1964.

    BRAGA, Ruy. A política do Precariado: do populismo à hegemonia lulista. São Paulo: Boi Tempo,

    2012.

    IASI, Mauro. O conceito e o “não-conceito” de classes em Marx. In: Ensaios Sobre Consciência e Emancipação. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

    HIRANO, Sedi. Castas, Estamentos e Classes Sociais: introdução ao pensamento de Marx e Weber. São Paulo: Alga-Omega, 1974.

    KARL, Marx. Contribuição à Crítica da Economia Política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

    ___________. Grundrisse: Manuscritos econômicos de 1857-1858: Esboços da crítica da economia política. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.

    ___________. O Capital: crítica da economia política. Livro 1: O processo de produção do Capital. Volume 1. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

    ___________. O Capital: crítica da economia política. Livro 1: O processo de produção do Capital. Volume 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

    ___________. O Capital: crítica da economia política. Livro 2: O processo global de produção do Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

    KARL, Marx e FRIEDRICH, Engels. A Ideologia Alemã. São Paulo: Boitempo Editorial, 2011.

    ______________________________. O Manifesto do Partido Comunista. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007.

    SINGER, André. “Raízes sociais e ideológicas do lulismo”. In Novos Estudos, no 85, nov. de 2009.

    SINGER, André. Os sentidos do Lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo:

    Companhia das Letras, 2012.

    SOUZA, Jessé. Os batalhadores brasileiros. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2010.

    THERBORN, Göran. “Class In The 21st Century”. In New Left Review, n. 78, novembro-dezembro, 2012.

    THOMPSON, E. P. A formação da Classe Operária Inglesa: a árvore da liberdade. São Paulo: Paz e Terra, 1987.

  • Reflexões sobre a “A política do precariado” de Ruy Braga

    Reflexões sobre a “A política do precariado” de Ruy Braga

    Resenha publicada na Revista de Ciências do Trabalho: http://rct.dieese.org.br

    Não é fácil sintetizar a multiplicidade de diálogos que Ruy Braga realiza no livro “A política do  Precariado: do populismo à hegemonia lulista”. A obra se insere entre as produções recentes sobre o atual estado da arte da sociedade brasileira, marcada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) no poder Executivo nacional. Sem delonga, o autor coloca no caminho pelo menos três grandiosos objetivos: 1) fincar na análise da realidade brasileira, não apenas contemporânea, mas desde 1950, o conceito de precariado; 2) produzir uma sociologia que dê conta da experiência dessa fração de classe no desenvolvimento histórico – nas palavras do autor, “uma ciência da experiência operária” (p. 88); erguer uma narrativa que relacione a política de Estado do período Lula com as práticas sindicais engendradas nas greves do final da década de 1970.

    De um ponto de vista mais geral, a obra vai defender com unhas e dentes uma única hipótese: a de que  o lulismo é a superação dialética do populismo – dois conceitos compreendidos pelo autor como formas hegemônicas de regulação social, isto é, formas de mediação das relações sociais de produção da vida protagonizadas pelo Estado. Para realizar essa passagem, do populismo ao lulismo, com o devido salto de qualidade, Ruy Braga empreende um trajeto de fôlego: volta à década de 1950 e a partir daí narra as transformações do precariado e das organizações sindicais.

    Em intenso diálogo com André Singer e Francisco de Oliveira, colegas de trabalho do Cenedic (Centro de Estudos dos Direitos e da Cidadania), Braga apresenta o precariado como ator privilegiado da narrativa. Para o autor, o precariado é a fração mais explorada da classe trabalhadora, pois está no coração do modo de produção capitalista e é seu produto direto. Em termos marxianos, o precariado é a fração proletária que compõe a superpopulação relativa, subtraído o lumpemproletariado e a população pauperizada. Ou seja, é o proletariado ativo e precarizado pelo próprio modo de produção – na periferia do sistema, é a maior parte dos trabalhadores. Vale dizer que também estão excluídos do precariado os trabalhadores profissionais, como os engenheiros, ferramenteiros, enfim, trabalhadores de qualificação escassa e, justamente por isso, não precarizados. O precariado, nos termos do autor, são os trabalhadores do telemarketing, os operários das autopeças e das fábricas de fundição, os trabalhadores da indústria de alimentação, em uma palavra, subalternos, inseridos intensamente nas relações de trabalho.

    Em generosa tabela comparativa (p. 28), Braga diferencia seu conceito de outros dois que estão na baila: o de subproletariado, de Singer (2012), e o de batalhadores, de Souza (2010). Em relação ao  primeiro, a diferença é que este abrange a população pauperizada e exclui a parte mais empregável da classe. Em relação ao segundo, a diferença está em incluir os trabalhadores profissionais e os  microempresários, como quer Jessé de Souza no livro “Batalhadores Brasileiros”. Obra, aliás, a que Braga não poupa críticas, sobretudo, ao identificar fragilidade metodológica e recorte enviesado na construção histórica, quando ignora declaradamente as organizações dos trabalhadores – viés que rende a Souza a acusação de violência simbólica e de fazer coro com aqueles que “estão de acordo em considerar o proletariado precarizado satisfeito com os modestos alívios em suas condições de existência proporcionados pelo atual modo de desenvolvimento” (p. 130).

    Para Braga, André Singer e sua atual interpretação sobre o lulismo também entram nesse coro dos contentes, mas de forma crítica. Segundo o autor, há graves problemas na interpretação de Singer. A começar pela definição de subproletariado, que supõe que essa parcela menos qualificada do proletariado não possui condição de reivindicação e mobilização coletiva. Para Braga, Singer apreende apenas o momento realista de seu objeto, sem ver o movimento, as transformações próprias a ele. Desse ponto de vista, Singer é acusado de estar ao lado daqueles que legitimam a conversão petista à ortodoxia financeira (p. 22), apesar do ponto de vista crítico.

    Travadas essas diferenciações e definido o ator de seu estudo, Braga parte para uma intensa revisita etnográfica dos autores da sociologia ocupada da classe trabalhadora dos anos 1950, 1960, 1970 e 1980. A metodologia utilizada é a da revisita etnográfica, a qual consiste em “estudar o outro em seu espaço e tempo, tendo em vista a comparação de seu campo com o mesmo estudado em algum ponto passado” (p. 63), ou seja, rever o material coletado pelos autores de outro tempo para, à luz de uma nova abordagem teórica, resignificar tanto o objeto de estudo quanto a teoria utilizada na época. Seguindo os passos de Michael Burawoy, a quem Braga agradece ternamente, o sociólogo pretende lançar luz tanto nas modificações do conhecimento do objeto (o momento da teoria que aborda o objeto) quanto nas modificações do objeto do conhecimento (momento do objeto que a teoria quer abordar). No decorrer da obra, isso vai significar a necessidade de elaboração de uma sociologia da experiência do proletariado, colocando as relações dessa fração de classe no centro da compreensão da realidade política. Isto é, vai erguer teoricamente a política do precariado.

    Dito isso, Braga mergulha nas obras da sociologia profissional que se interessou pelo operariado nos anos 1950 (Leôncio Rodrigues e Juarez Brandão Lopes) e pelos que já revisitaram essas obras (Antônio Luigi Negro e Paulo Fontes), a fim de realizar o duplo movimento explicitado acima. O percurso é longo e desembarca no avesso do populismo, quando nosso autor defende que, revendo as etnografias, fica claro que não havia um consentimento ativo do precariado no período populista. Na verdade, havia uma intensa inquietação sob a batuta de uma hegemonia precária cuja fragilidade o golpe militar revelou. Assim, ao fazer essa revisão etnográfica, Braga resignifica o próprio conceito de populismo:

    Em vez de um comportamento passivo e permeável à manipulação política, […]
    a hegemonia populista caracterizou-se por um estado permanente de inquie-
    tação social entre os operários, especialmente sua fração mais precarizada, e
    que se expressou em seguidos desencontros entre ativismos nas bases meta-
    lúrgicas e a moderação nas cúpulas sindicais (p. 66).

    Ao reconstituir e avançar nas datações das grandes greves presentes nos trabalhos analisados (Greve dos 300 mil, em 1953, Greve dos 400 mil, em 1957, Greve dos 700 mil, em novembro de 1963, além de Contagem e Osasco, em 1968), Braga vira o populismo do avesso, identificando grande inquietação nas bases e moderações nas cúpulas sindicais. A partir daí, o mergulho da revisão etnográfica vai para as obras de Weffort, Francisco de Oliveira, Luiz Pereira e José Albertino Rodrigues, rumo à elaboração de uma sociologia da inquietação operária, que esses autores entreviram, mas não fizeram. Vale dizer que  José Abertino Rodrigues, apontado por Braga como pioneiro na análise da figura do “pelego” e dos limites da burocracia sindical, foi um dos primeiros diretores técnicos do DIEESE, instituição que marcou a vida intelectual de Rodrigues. Esses resgate é muito bem-vindo, sobretudo no contexto da formação da Escola de Ciência do Trabalho do DIEESE, no qual essa revista se insere.

    Assim, passando criticamente por esses autores, Braga termina a primeira parte do livro, “A Formação do Avesso”, dando centralidade para a análise da experiência operária a partir da percepção do que “Gramsci chamou de ‘fatalismo dos fracos’, isto é, aquele estado de inquietação social que antecede a transformação dos subalternos em protagonistas de sua própria história” (p.130). Para o autor, os que fazem coro com a noção de satisfação proletária e com as conquistas tanto do período lulista quanto populista não têm condições de perceber a explosão dos subalternos.

    A segunda parte do livro, “A Transformação do Avesso”, tratará de mostrar como as relações engendradas no novo sindicalismo superam o populismo e o elevam a um patamar superior: o lulismo. Utilizando-se da mesma metodologia, Braga vai refazer o percurso de Lula da Silva e do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, com ênfase em três aspectos dessa trajetória: 1) Lula, um operário de destaque nas mobilizações, é chamado por Paulo Vidal, interventor no Sindicato, para compor a direção; 2) Esse processo leva a um aprendizado, absorvido por Lula, de como perceber “naturais” lideranças no meio operário e neutralizá-las, levando-as à “máquina”; 3) as greves de 1978-1979 aconteceram à revelia do aparato burocrático, que só é mobilizado pela força das circunstâncias e acaba por dirigir um movimento maior que ele mesmo esperava, e que, no entanto, é freado e dirigido, privilegiando a retomada da estrutura sindical. É dessa trajetória que o autor retira o lulismo:

    Ao identificarmos, na articulação entre o poder sindical e o ativismo das bases, a arqueologia da hegemonia lulista, destacamos a natureza reformista dessa práxis. Uma hegemonia apoiada na combinação da incorporação dos ativistas mais destacados à estrutura sindical (consentimento ativo), ou seja, ao Estado capitalista, com a conquista de pequenas concessões materiais aos trabalhadores (consentimento ativo) (p. 36).

    Dessa forma, para Braga, as raízes da hegemonia lulista estão nas relações de organização da classe operária. E quando essa forma de relação chega até o Estado, representa uma “revolução passiva a brasileira”. Isto é, o consentimen­to passivo da população, atraída por políticas públicas de aumento de renda, junto com o consentimento ativo das direções sindicais “seduzidas por posições no aparato estatal, além das incontáveis vantagens materiais proporcionadas pelo controle dos fundos de pensão” (p. 181). Os conceitos gramscinianos que vêm na sequência, para qualificar essa conversão das lideranças sindicais em especuladores e gestores do capital, é o de transformismo – fenômeno de passagem para o outro lado do balcão, utilizando-se de todo conhecimento adquirido do lado anterior.

    Assim, para fechar a longa trajetória teórico-analítica do precariado, Ruy Braga traz à baila os contemporâneos trabalhadores das operações de telemar­keting – como exemplo do grupo que sintetiza as características mais salientes do regime de acumulação pós-fordista sob a hegemonia do lulismo. Braga, conhecido por estudar os trabalhadores do setor, faz um longo resgate dos trabalhos pertinentes e dos relatos de campo de seus próprios estudos sobre os teleoperadores. Colocados como exemplo do avesso do avesso de Chico de Oliveira, o autor vê nos trabalhadores dessa categoria, por um lado, a plena operação da política do precariado lulista – já que o setor é fortemente afetado pela política do salário mínimo (consentimento passivo) e as direções sindicais estão docilmente incorporadas à máquina (consentimento ativo); por outro, a inquietação potencial, expressada em algumas greves “espontâneas”, do fata­lismo dos fracos. Vale lembrar que, um ano após a publicação do livro, ocorreram grandes manifestações – cujos participantes se enquadram no perfil de jovens que trabalham no telemarketing e que explodiram com grande indignação devido à precária condição de vida por todo Brasil.

    Como não podia deixar de fazer, Ruy Braga tenta apontar o sentido da hegemonia lulista, deixando duas conclusões duras para o devir. A primeira é que, do ponto de vista do dilema atrasado/moderno, seguindo mais uma vez Francisco de Oliveira, nosso autor não exita em apontar a hegemonia lulista como recolocação do atraso na medida em que reproduz uma perversa forma de dominação de classe. A segunda é apontar, assim como Singer (2012), apesar de não resgatado nesse momento, a consequência nefasta da mobilização pelo consumo promovida pelo governo Lula na busca do consentimento passivo da população. Para Braga, essa integração pelo consumo gerou uma despolitização da classe trabalhadora, retrocedendo ao que estava colocado nos anos 1980. Mais uma vez, vale lembrar que, nas manifestações de junho de 2013, foi possível observar justamente esse caráter despolitizado da multidão de jovens trabalhadores que foram às ruas.

    Por fim, vale dizer que, para o autor, o livro se encaixa em um projeto maior compartilhado com Álvaro Bianchi, que é de explicar “Gramsci aos trotskistas e Trotski aos gramscinianos”. Daí os conceitos como hegemonia, desigual e combinado, revolução passiva e a crítica ferrenha ao burocratismo serem marcas da obra. O livro conta ainda com duas surpresas. A primeira é um recheio de fotos extremamente inspiradoras, selecionadas de todo o período estudado, e rico material histórico; a segunda é uma coletânea de intervenções publicadas em meio virtual e jornais impressos.
    Bibliografia
    Singer, André. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. São Paulo: Cia. das Letras,  2012.
    Souza, Jessé de. Batalhadores Brasileiros: a nova classe média ou nova classe trabalhadora? Belo  Horizonte: UFMG, 2010.

  • Urgente – Grupo Saravá está prestes a perder seu principal servidor!

    Urgente – Grupo Saravá está prestes a perder seu principal servidor!

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    PRIMEIRO ROUBO DE DADOS APÓS APROVAÇÃO DO MARCO CIVIL:ATAQUE POLICIAL À PRIVACIDADE PODE OCORRER DEPOIS DE EVENTO NETMUNDIAL.

    Publicado em https://www.sarava.org/pt-br/node/102

    Por conta de um processo que corre em segredo de justiça contra a Rádio Muda, a mais antiga rádio livre em operação no Brasil, o principal servidor do Grupo Saravá poderá ser apreendido nesta próxima segunda-feira 28/04 às 13:00.

    A Rádio teve seus equipamentos apreendidos mais uma vez em 24 de fevereiro deste ano[1]. Na esteira desse processo, a procuradoria do Ministério PúblicoFederal prosseguiu o inquérito, desta vez mirando os dados disponíveis no site da rádio que possam identificar seus participantes. Uma requisiçãodo MPF assinada pelo Procurador Edilson Vitorelli Diniz Lima formalizou o pedido. O servidor do Grupo Saravá que está localizado na Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, hospedava a plataforma radiolivre.org, incluindo o site da Rádio Muda – muda.radiolivre.org, e hospeda outros diversos projetos de pesquisa e de extensão, relacionados além da Unicamp a outras universidades públicas brasileiras.

    O Saravá é um grupo de estudos que há dez anos oferece infraestrutura tecnológica, reflexão política e sistemas de comunicação autônomos e seguros de forma gratuita a grupos de pesquisa e movimentos sociais[2]. Em 2008 um dos seus servidores já foi apreendido e até hoje não foi devolvido[3]. Agora, em 2014, logo após a aprovação do Marco Civil da Internet [4] e a realização de uma conferência mundial sobre a internet na qual o Brasil tentou figurar como bastião da proteção da liberdade na internet, nos deparamos com mais uma tentativa de sequestro de dados, prejudicando a privacidade de projetosde pesquisas e o livre acesso a informações com o fechamento de listas de discussão, sites e ferramentas.

    Julgamos desproporcional a quebra de sigilo de comunicação para os fins do inquérito do MPF. Ademais, o servidor não possui registros que possam identificar usuários/as como parte de sua política de privacidade[5]. Pedimos solidariedade a todos os grupos, indivíduos e instituições que lutam por uma sociedade e uma internet livre. Na próxima segunda-feira 28/04 às 13h haverá uma manifestação na frente do prédio do Centro de Processamento de Dados do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, todo apoio é bem vindo. Pela internet, haverá manifestação em redes sociais e através do envio de mensagens de repúdio ao Ministério Público Federal.

    Hashtags: #SaravaLivre, #netmundial1984, #sarava, #privacidade, #OurNetMundial, #marcocivildainternet

    Exigimos a imediata interrupção das investidas policiais contra o servidor do Grupo Saravá e os dados dos/as usuários/as.

    [1] http://intervozes.org.br/fechamento-da-radio-muda-e-mais-um-atentado-contra-a-liberdade-de-expressao-no-brasil/

    [2] Princípios do Saravá: https://www.sarava.org/pt-br/principios

    [3] Sequestro do Saravá em 2008:https://www.sarava.org/pt-br/node/44[4] Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014:http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm

    [5] https://www.sarava.org/pt-br/privacidade

  • Reflexões sobre a desigualdade

    Reflexões sobre a desigualdade

    Artigo publicado na revista Inter-Relações n.39, do curso de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina: http://www.faculdadesantamarcelina.com.br/jornal/index.php/InterRelacoes/

    Introdução

    A desigualdade social – compreendida aqui como desigualdade econômica e também como desigualdade de acesso aos direitos sociais – tem percorrido a história do capitalismo desde seus primórdios. No contexto atual, de forma imediata, a desigualdade social aparece como fator central do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e também no debate político como fator de preocupação de todos os governantes e suas empreitadas eleitorais. No mesmo sentido, ainda no contexto atual, a desigualdade tornou-se uma medida civilizatória: o seu baixo nível indica sucesso governamental e marca de sociedades avançadas, já seu aumento é sintoma de fracasso dos mandatários e retrocesso social.

    Contudo, para retomarmos a desigualdade como questão social, não é demais voltar as bandeiras da revolução francesa, ou mesmo um século antes dessa, na guerra civil inglesa – a luta dos “niveladores” no início do século XVII, não era outra senão o fim da desigualdade econômica e jurídica entre a população como única forma de alcançar a liberdade. Para um homem comum as palavras de Richard Overton, levantadas contra a monarquia inglesa, ainda podem soar contemporâneas:

    todo homem por natureza é rei, sacerdote e profeta em seu próprio ambiente natural, do qual ninguém pode participar senão por delegação, comissão, e livre consentimento dele, sendo esse um direito natural e de liberdade2(OVERTON, 1646).

    Mais de três séculos depois das palavras de Overton, o mandatário, democraticamente eleito presidente da maior economia do mundo, o estadunidense Barack Obama, afirmou em janeiro de 2014, que com ou sem o apoio do congresso tomará medidas contra a desigualdade3, seu principal tema de campanha e desafio de governo.

    O que significa essa persistência da desigualdade na trajetória do capitalismo? Olhando a história dos últimos séculos, a humanidade avançou ou retrocedeu nessa questão? O que gera a desigualdade econômica? De outra forma, o que impede a igualdade econômica? Essas são grandes questões cujas respostas, evidentemente, não são unívocas. Diante disso, a proposta do presente artigo é traçar algumas reflexões sobre a desigualdade econômica e sua relação com: o sistema capitalista; o Estado; a democracia; e os movimentos sociais. Evidentemente, que não há nenhuma pretensão de esgotar o tema e as questões colocadas.

    Desigualdade e capitalismo

    De diversos pontos de vista a desigualdade, sobretudo econômica é inerente ao sistema capitalista. Não é preciso grande atenção para observar esse fenômeno em diversos países – onde reina a lógica do capital há sempre uma parte da sociedade rica (banqueiros, empresários, rentistas) e outra parte da sociedade muito menos abastada e pobre em relação a outra (comerciários, professores, trabalhadores da indústria e etc…). Um passeio amplo pelos bairros de qualquer cidade global como São Paulo, Buenos Aires, Londres e Paris, revela nos diferentes aspectos das habitações poderes de compra e qualidades de vida muito distantes entre os cidadãos de mesma nacionalidade.

    No entanto, essa desigualdade econômica é justificada pelos ideólogos do capitalismo, através das garantias de igualdade jurídica e de liberdade de compra e venda. Esses ideólogos, presentes desde as revoluções burguesas – diferente do nivelador Overton citado na introdução – defendem a igualdade perante as leis e a livre concorrência nos mercados: por um lado, querem a igualdade jurídica (diferente dos aristocratas que querem direitos especiais), mas por outro, são coniventes com a desigualdade econômica, pois essa é uma consequência natural da liberdade de comprar e vender nos mercados. Além disso, a livre concorrência para os liberais progressistas significaria também um avanço societário, pois, no frigir dos ovos, aqueles que ganham no mercado, realmente produziram algo que é bom para todos. Evidentemente, a crença que o bem comum virá através da livre concorrência não se sustentou durante muito tempo, e o fato da desigualdade e suas mazelas sociais como a pobreza, sempre acompanhou as sociedades burguesas. Numa crítica generosa o sociólogo Karl Polanyi alerta os liberais de seu erro teórico:

    A filosofia liberal jamais falhou tão redondamente como na compreensão do problema da mudança. Animada por uma fé emocional na espontaneidade, a atitude de senso comum em relação à mudança foi substituída por uma pronta aceitação mística das consequências sociais do progresso econômico, quaisquer que elas fossem (POLANYI, 2000: 51).

    Para Polanyi, o grosseiro erro liberal foi não perceber que o capitalismo move-se através de um “moinho satânico” pelo qual parte da população é jogada na miséria e em condições de vida degradantes. Invariavelmente, o ininterrupto avanço industrial, como na China de hoje, traz consigo os processo de desapropriação das populações do campo e a chegada de uma massa de proletários às cidades. As descrições feitas por Engles, sobre os trabalhadores pobres da Inglaterra e Marx (1998) no famoso capítulo “A acumulação primitiva” em O Capital ainda são de uma atualidade espantosa:

    Se, em geral, a população das cidades já é demasiada densa, são os pobres os mais amontoados em espaços exíguos. Não contente com a atmosfera envenenada das ruas, encerra-os às dezenas em habitações de um único cômodo, de tal modo que o ar que respiram à noite é ainda mais sufocante (…) E se os pobres resistem a tudo isso, sobrevém uma crise que os transformam em desempregados e lhes retira o mínimo que até então a sociedade lhes destinara (ENGELS, 2010: 138).

     

    Na esteira de Marx, o fundamento da desigualdade econômica, ou, usando o termo de Polanyi, o motor do “moinho satânico”, não pode ser encontrado na esfera da circulação das mercadorias, isto é, no próprio mercado onde reina a livre concorrência. Para o autor o fundamento do sistema capitalista está nas relações de produção da vida, ou seja, na forma pela qual os homens se relacionam para produzir o que lhes é necessário (seja para o estômago ou para a fantasia). Nas relações de produção do sistema capitalista impera a exploração do trabalho assalariado. Para todos aqueles que não são proprietários de meios de produção, mas são apenas proprietários de sua força-de-trabalho, a principal opção de sobrevivência é ir ao mercado, e procurar um emprego – isto é, procurar um comprador de sua força-de-trabalho. Os burgueses são os que compram meios de produção e força-de-trabalho, os proletários são os que a vendem. O processo de exploração da força-de-trabalho, só se revela dentro da jornada de trabalho, na qual os trabalhadores envolvidos no processo de produção de mercadorias, produzem um valor maior do que vale sua própria força-de-trabalho. A diferença entre o que vale a força-de-trabalho e a quantidade de valor por ela produzida, é o que Marx chamou de mais-valia: o trabalho excedente apropriado de forma privada pelos proprietários dos meios de produção. O encanto desse processo é que a exploração do trabalho está oculta no produto final: a mercadoria esconde o processo pela qual ela é produzida – e quando disposta nas prateleiras dos mercados ganha “propriedades mágicas”. Por outro lado, revelada a forma pela qual os trabalhadores são explorados, não é difícil compreender a desigualdade escancarada nas ruas e bairros das cidades modernas.

    Portanto, podemos afirmar que o motor principal da persistência da desigualdade social nas sociedades capitalistas é o seu próprio fundamento: a exploração do trabalhador assalariado. Diante desse fato, ocultado no mercado e nas teorias dos ideólogos burgueses, não há discurso sobre a livre concorrência que se sustente. Sob a novidade do moderno desenvolvimento capitalista, até os dias atuais, subsiste a exploração. Como cantou Gilberto Gil, anunciando a chegada do “mundo moderno” aos trópicos, “a novidade veio dar na praia/ (…) e a novidade era guerra/ entre o feliz poeta e os esfomeados”.

    Desigualdade e políticas públicas

    Partindo da constatação que o motor da desigualdade é a exploração do trabalho, pode-se indagar sobre o papel do Estado Moderno no combate a essa mazela social. Se compreendermos o Estado Moderno como a representação máxima da ordem social, cujo papel é defender, no limite com armas, a constituição jurídica da sociedade, chegaremos a conclusão de que o Estado está diante de um aparente paradoxo no que toca a questão da desigualdade. Por um lado, é preciso combater a desigualdade para o bem da própria sociedade e a sobrevivência do próprio Estado enquanto aparato de governança, por outro, no entanto, o motor da desigualdade é fundamento intocável através do qual se ergue o próprio Estado. O Estado está pronto para defender que a propriedade dos meios de produção continue privada e esteja sob controle de um punhado de cidadãos notáveis e burgueses. O que lhe resta, assim, é um combate aos sintomas da desigualdade, na medida necessária para não colapsar o conjunto da sociedade. O paradoxo é aparente, pois o Estado não está interessado por si só em combater a desigualdade. Na prática as políticas que combatem essa mazela surgem em contextos de luta social e são frutos das organizações dos trabalhadores, como medida mais de contenção dos ânimos do que de avanço civilizatório.

    Lena Lavinas (2013), em recente artigo a New Left Review, analisa os diversos momentos das políticas de proteção-social aplicadas em vários países no longo período do século XIX ao século XXI. Segundo a autora, essas políticas, relacionadas sempre aos movimentos dos trabalhadores e suas reivindicações por melhores condições de vida, são marcadas por fracassos e resultados temporários. Para ela há três grandes momentos desse tipo de política: inicia-se no século XIX, junto ao movimento operário, e tem como marca principal o embate direto com os patrões para a garantia de melhores condições de vida sobretudo para os que recebem salários mais baixos; já durante o século XX o movimento volta-se para uma política geral de proteção e igualdade de acesso e oportunidades, independente da faixa de renda ou status social, tendo como marca principal a igualdade de condições; e, finalmente, no século XXI, com a decadência do estado de bem-estar social nos moldes anteriores, essas políticas se alteram para programas de transferência de renda condicionadas (como o caso do programa Bolsa Família), e estão baseadas na integração ao mercado, tendo como objetivo principal a diminuição da miséria e como resultado secundário a diminuição da desigualdade. Essa terceira fase, de integração pelo mercado, é para a autora, uma fase muito frágil de combate a desigualdade e representa um recuo em relação à situação que estava colocada no estado de bem-estar social anterior.

    Um aspecto desse percurso chama a atenção para o contexto brasileiro. É que foi na América Latina, principalmente no Brasil que esse tipo de política popularizou-se, sendo hoje utilizada em vários países e cidades, como Nova York, por exemplo (LAVINAS, 2013:05). Sobre essa popularização, é possível pensar que o sucesso dessas medidas tem uma relação estreita com a sua eficiência eleitoral para os políticos que as iniciam. Desde Roosevelt, nos EUA, se sabe que o combate a desigualdade tem poder eleitoral surpreendente. E certamente no contexto brasileiro, os recém completados 10 anos de gestão presidencial sob comando do Partido dos Trabalhadores (PT) tem relação estreita com as políticas de transferência de renda condicionadas.

    Desigualdade e Democracia

    Não é obvia a relação entre democracia e a diminuição da desigualdade. Por mais que alguns teóricos da democracia, como Schumperter (1984), afirmem que sob o regime democrático a desigualdade tende a diminuir, a última década demonstrou o contrário para os países centrais. Ironicamente, o país berço da democracia, a Grécia, foi justamente um dos países, ao lado de muitos outros estados europeus e os Estados Unidos, onde a desigualdade (junto com a pobreza e a miséria) aumentou gravemente. Diante da crise econômica de 2008-9, a pressão dos proprietários de capital para que o Estado pagasse suas dívidas, venceu a pressão dos trabalhadores por proteção social – cortou-se gasto com políticas públicas para garantir o pagamento dos juros e empréstimos. Sem emprego e sem renda mínima, os gregos são o exemplo de como as sociedades avançadas podem retroceder em suas conquistas civilizatórias. Nesse ponto, o aparente paradoxo do Estado frente a desigualdade se desfaz, e a burguesia mostra suas garras numa cruel demonstração de poder.

    Um dos grandes teóricos da democracia contemporânea, Robert Dahl (2012), preocupou-se com essa relação. Para Dahl a democracia é um processo de decisão que envolve um campo amplo de conhecimentos e valores políticos, e pode avançar e retroceder em diversos aspectos. A desigualdade para o autor é um desses aspectos cruciais, no qual a capacidade de destruição do processo democrático é eminente. Em países de grande desigualdade a camada detentora do poder econômico tem tantos meios de barganha que a democracia, apesar de existir formalmente, não se efetiva. Nas palavras do autor:

    As consequências da ordem econômica para a distribuição de recursos, posições estratégicas, poder de barganha, e portanto para a igualdade política, fornecem um motivo adicional de preocupação quanto à propriedade e ao governo das empresas econômicas. Pois os sistemas dominantes de propriedade e controle resultam em desigualdades substanciais não apenas na riqueza e na renda, mas também numa série de outros valores ligados ao trabalho, ao emprego, à propriedade, à riqueza e à renda (DAHL, 2012: 533).

    Nesse ponto Dahl chega a beira de uma crítica a democracia sob o sistema capitalista. No entanto, em postura de recuo diante da possibilidade mesma da crítica, o autor limita-se a pedir atenção extrema para essa questão, e afirma que a democracia não funciona com altos índices de desigualdade. No entanto, avançando para o abismo colocado pelo norte americano, vale resgatar a crítica a democracia sob o capitalismo feita por Lenin (2007) em seu polêmico “O Estado e a Revolução”. Lenin, próximo de Dahl (com o perdão do anacronismo), argumenta que sob o sistema capitalista a desigualdade impede a democracia, pois é desproporcional o poder de barganha dos empresários diante dos trabalhadores. No entanto, a desigualdade colocada por Lenin está relacionada não apenas a esfera política, mas também a esfera econômica e as relações de produção, de modo que o problema ganha força: como uma sociedade baseada em relações de exploração pode pretender-se democrática? Para Lenin a separação entre a política (todos votam como iguais) e a econômica (mas a propriedade dos meios de produção é privada) é fatal para um regime democrático. Pois mesmo na república mais democrática que possa existir, se for sob o sistema capitalista, reinará a exploração do trabalho, isto é, a exploração de uma parcela da população sobre a outra, ou seja, de uma classe social sobre a outra, e o regime democrático servirá apenas como forma de dominação. Nas palavras do autor:

    Decidir periodicamente, para um certo número de anos, qual o membro da classe dominante que há de oprimir e esmagar o povo no Parlamento, eis a própria essência do parlamentarismo burguês, não somente nas monarquias parlamentaristas constitucionais, como também nas repúblicas mais democráticas (LENIN, 2007: 66).

    A crítica de Lenin se completa com a afirmação de que a democracia só poderá ser realizada plenamente sob o regime socialista, pois nele as relações de produção estarão guiadas pelo conjunto da sociedade e não por uma classe sobre a outra. Nesse sentido, o autor resgata a Comuna de Paris como exemplo dessa possibilidade:

    É esse, justamente, um caso de ‘transformação de quantidade em qualidade’: a democracia, realizada tão plenamente e tão metodicamente quanto é possível sonhar-se, tornou-se proletária, de burguesa que era: o Estado (essa força destinada a oprimir uma classe) transformou-se numa coisa que já não é, propriamente falando, o Estado (Idem, 63).

    Certamente, o desfecho dramático da União Soviética acrescentou duras tintas as palavras do revolucionário. No entanto, sua crítica permanece atual e avança para transformações mais profundas na medida em que toca nos fatores que produzem a desigualdade, e não apenas em sua aparência como as políticas que estão colocadas para o Estado Moderno atual.

    Desigualdade e movimentos sociais

    Vimos que há uma relação estreita entre as políticas públicas de combate a desigualdade e os movimentos sociais – os últimos são o fator determinante da existência delas. No período recente essa estreita relação tem se reafirmado em manifestações de massa como houve no Egito ou mesmo nos Estados Unidos com o movimento Ocupy. Nesses casos, é sabido que um dos fatores que ascendeu o estopim para a explosão do movimento popular foi o aumento do preço dos alimentos somado ao desemprego naqueles países. No entanto, a relação entre aumento da desigualdade e manifestações não é direta e depende de muitos fatores, como a qualidade das organizações que estão no jogo e as pautas que essas organizações levantam.

    Nesse sentido, Singer (2012), ao tratar da atualidade brasileira traça uma reflexão importante sobre o assunto. Segundo o autor, a diferenciação entre pobreza e desigualdade é divisora de águas na compreensão das possibilidades políticas dos movimentos sociais. Para ele a pauta central do subproletariado – a fração mais pobre da classe trabalhadora e a parcela mobilizada pelo governo de Lula – é a diminuição da pobreza. Essa pauta tem relação com a diminuição da desigualdade, contudo não leva necessariamente a uma sociedade mais igualitária, seu limite é uma sociedade sem pobres. Por sua vez, é o proletariado – na definição de Singer, a parcela de trabalhadores com empregos formais –, que tem entre suas pautas a diminuição da desigualdade e poderia levar a cabo mudanças mais radicais na sociedade (SINGER, 2012: 161).

    Essa distinção proposta por Singer é interessante, pois delimita dentro dos movimentos sociais como a questão da diminuição da desigualdade opera. Certamente que a mobilização de todas as parcelas da classe trabalhadora passam por questões que tocam a desigualdade, mas a capacidade de levar a frente um projeto de sociedade que supere o motor da desigualdade não está colocado diretamente para todas as parcelas. Daí a importância do movimento operário na transformação radical da sociedade.

    Nesse sentido, o sociólogo Göran Therborn (2006, 2011, 2012), que se dedica ao estudo da desigualdade como tema central de suas pesquisas, tem alertado para um fenômeno recente: o aumento da desigualdade mundial e, em consequência, o reaparecimento do conceito de classes sociais economicamente definidas no centro das análises da sociologia. Além disso ele ressalta em texto especialmente sobre a América Latina, que há uma diminuição considerável na desigualdade nessa região, no entanto, comparativamente o índice de desigualdade ainda é muito alto nesse território em relação aos países centrais. Não obstante, tanto aqui como lá, a desigualdade tem colocado em movimento organizações sociais cujas pautas e características exigem a retomada do conceito em questão. Em outras palavras, a luta de classes se intensifica.

    Inspirado pela constatação de Therborn, cabe dizer que mundialmente as classes se movem em proporção inédita, numa luta vital contra a desigualdade. Luta que pelo fundamento do próprio sistema capitalista só tem desfecho através da superação das relações de exploração do trabalho: a chave para patamares superiores de sociedade.

    Bibliografia:

    DAHL, Robert (2012). A democracia e seus críticos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

    ENGELS, Friedrich. A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. São Paulo: Editora Boitempo, 2010.

    LAVINAS, Lena. 21St Century Welfare. New Left Review 84, Dec. 2013, páginas 5-40.

    LENIN, V. L. O Estado e a Revolução. São Paulo: Expressão Popular, 2007.

    MARX, Karl. O Capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

    OVERTON, Richard. An arrow against all tyrants, 1646. Acessado em 05/02/2014 via internet pelo site: http://www.constitution.org/lev/eng_lev_05.htm

    POLANIY, Karl. A grande transformação: as origens de nossa época. São Paulo: Editora Campos, 2000.

    SCHUMPETER, Joseph (1984). Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro: Zahar, 1984.

    SINGER, André. Os sentidos do Lulismo. São Paulo: Cia das Letra, 2012.

    THERBORN, Göran. Class in the 21St Century. New Left Review 78, Dec. 2012, páginas 5-29.

    THERBORN, Göran. Inequalities and Latin America. From the Enlightenment to the 21st Century. desiguALdades.net, Working Paper Series, Nr. 1, Berlin: desiguALdades.net Research Network on Interdependent Inequalities in Latin America , 2011.

    THERBORN, Göran. Inequalities of the World. London/New York: Verso, 2006.

    1O presente texto é fruto de uma exposição realizada na ocasião da XVI Semana de Relações Internacionais da Faculdade Santa Marcelina, na mesa de título: Rebeliões e desigualdades sociais no século XXI: crise ou fortalecimento do capitalismo? Agradeço a Tadeu Morato Maciel, coordenador do curso, pelo convite à publicação do artigo.

    2Tradução livre direto do texto em inglês.

    3http://www.bbc.co.uk/news/world-us-canada-25917009

  • Reflexões sobre a leitura de “A Política como Vocação” de Max Weber

    Reflexões sobre a leitura de “A Política como Vocação” de Max Weber

    O texto clássico conhecido como “A política como vocação” é fruto de uma conferência realizada por Max Weber em 1918, e publicado em 1919 na Alemanha. O fato de ser uma conferência garantiu certo tom coloquial, mas que nada perde, pelo contrário, o texto é inspirador. Como parece ser uma constante nos clássicos da ciência política, desde Maquiavel, o realismo e a sobriedade são marcas narrativas da obra, como veremos. O problema inicial enfrentado por Weber e que servirá de guia para erguer um arcabouço teórico monumental à ciência política é: a “vocação política” e qual o sentido que ela pode assumir.

    Para tal o autor inicia pelo questionamento básico, afinal, o que é política? Assumindo que a palavra possui um amplo e variado leque de sentidos, Weber afasta os significados usuais através da seguinte definição de saída: “por política entendemos tão somente a direção de agrupamento político hoje denominado ‘Estado’ ou a influência que ele exerce nesse sentido”. Ou seja, o conceito de política é reduzido “tão-somente” as ações e fazeres que giram em torno e no interior do Estado. Por sua vez, Estado é definido também de saída como: “uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território – a noção de território corresponde a um dos elementos essenciais do Estado – reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física”. Citando Trotski, Weber concorda que todo Estado se fundamenta na força, sendo o Estado Moderno aquele que a monopoliza legitimamente, tornando-se a única fonte de direito à violência. Por conseguinte, a política é “o conjunto de esforços feitos visando a participação do poder ou a influenciar a decisão do poder, seja entre Estados, ou no interior de um único Estado”.

    No entanto, não é por ser legítimo que o Estado não utiliza sua força para a dominação, pelo contrário, para o autor o Estado consiste em uma relação de dominação do homem pelo homem, embora tenha como base o uso legítimo da violência física. Isso quer dizer que “o Estado pode existir somente sob condições de que os homens dominados se submetam a autoridade continuamente reivindicada pelo dominadores”. Desse modo, qualquer homem que se arrisque na política quer poder, isto é, quer se colocar na posição de dominador. O político invariavelmente está em busca de poder, pois disputar o Estado é disputar a fonte de poder, seja para fins ideais ou para gozar de prestígio. Esta é uma condição da luta política; fazê-lo é estar disposto a dominar.

    Assim Weber questiona-se sobre a própria dominação, indagando os porquês da submissão e quais os fatores que levam a ela. Em resposta, aponta três razões que justificam a dominação, acompanhadas de três correspondentes fundamentos de legitimidade. Seguindo seu próprio método, para Weber as três formas legítimas de dominação são formas puras ou ideais, raramente encontradas nesse estado de pureza como é descrito pelo autor. A primeira é o domínio tradicional, que se fundamenta e se legitima no passado, pela tradição. A segunda forma é o domínio exercido pelo carisma e se fundamenta em dons pessoais e intransferíveis do chefe-político. A terceira é o domínio exercido pela legalidade, baseado em regras racionalmente criadas e se fundamenta na competência. Evidentemente, Weber alerta que a submissão e a obediência dos dominados está condicionada por motivos extremamente poderosos, sobretudo pela força física e implantados pelo medo ou pela esperança. Não obstante, são as formas de dominação legítimas que importam para o Estado Moderno.

    Das três o autor dedicará especial atenção ao domínio exercido pelo carisma puramente pessoal do chefe. Para Weber é no ocidente que esse tipo será mais desenvolvido, especialmente sob a figura do líder demagogo, o qual “se apresenta comumente sob o aspecto de um líder parlamentar”. É esse tipo que conduz às reflexões sobre a vocação política, ao mesmo tempo, é também nele que se deposita fé, tornando-se determinante ao jogo político no ocidente. Contudo, este não é em país algum o único a fazer parte da disputa. Antes, “reside o fator decisivo [da política] na natureza dos meios que dispõe o homem político”. Isto é, “de que maneira conseguem as forças dominantes impor sua autoridade?”

    Mesmo o líder carismático necessita de meios materiais e conhecimento administrativo para exercer seu domínio. Nesse ponto, Weber passa a analisar o Estado como uma empresa de dominação elencando duas necessidades básicas e inerentes a ele. Por um lado, há o estado-maior administrativo e, por outro, há os meios materiais de gestão. Isto é, respectivamente, o conjunto de atividades organizadas voltadas a realização da obediência, e os recursos econômicos suficientes tanto para exercer a força física quanto para abrigar funcionários. A obediência dos súditos ou funcionários dentro do estado-maior se dá, nesse sentido, pela retribuição material e pelo prestígio social que o líder ou chefe de Estado possibilita.

    Em relação aos meios materiais de gestão, Weber aponta que uma das principais características do Estado Moderno é a separação entre os funcionários e trabalhadores burocráticos e os meios de gestão. O Estado Moderno “desenvolveu-se em paralelo a empresa capitalista que domina, pouco a pouco, os produtores independentes”. O autor defende que esse Estado expropriou “todos os funcionários [súditos da corte e aristocratas, por exemplo] que, consoante o princípio que ‘os Estados’ dispunham no passado, por direitos próprios, dos meios de gestão”. Isso criou uma quantidade grande de trabalhadores do Estado que estão subordinados a gerência dos dirigentes, políticos que detém o poder de distribuir cargos.

    É sobre essa forma de Estado, no contexto do ocidente, que viu-se surgir o “político profissional”. Partindo de um critério econômico, o autor distingue aqueles que “vivem para a política”, daqueles que “vivem da política”. É evidente que a política, assim como definida, pode ser exercida por todos, mas há aqueles que a elegem como atividade principal e os que a exercem ocasionalmente. Não obstante, o autor salienta que “todo homem sério, que vive para uma causa, vive também dela”, mas isso não impede que a diferenciação econômica dos que “vivem para” e dos que “vivem da” política não seja relevante. Pelo contrário, defende Weber que na vida moderna nem o operário, tampouco o homem de negócios, o empresário, estão disponíveis suficientemente para a política. É oportuno, portanto, para a sobrevivência dos partidos políticos a disponibilização de pessoas que “vivam da” política e a tenham como profissão principal. Por conta disso Weber é enfático ao afirmar que essa dinâmica, tem como uma das principais consequências, a constituição de uma camada ampla de dirigentes políticos erguidos por critérios plutocráticos, isto é, o partido que tem mais recursos econômicos para disponibilizar políticos profissionais elege mais e tem mais poder. Eis como o político profissional se ergue como o autêntico tipo moderno.

    Essa dinâmica relacionada a outra característica descrita acima, qual seja, a separação entre funcionários do Estado e os meios de gestão, torna a luta partidária não só uma luta por metas e objetivos programáticos, digamos uma luta de cunho ideológico, mas, acima de tudo, é erguida uma intensa disputa pelo controle da distribuição do Estado para distribuição de empregos. Nesse sentido, Weber destaca que é inerente ao Estado Moderno a tendência a corrupção e ao apego a máquina, nas palavras do autor, “uma tendência que leva a criação de uma casta de filisteus corruptos”.

    No entanto, defende o autor que paralelo ao político profissional desenvolveu-se junto ao Estado Moderno um outro agrupamento de funcionários, o qual se opõe a tendência descrita acima. A função pública, nos dias de hoje, “exige um grupo de trabalhadores especializados, altamente qualificados e que se preparam, durante muito tempo, para o desempenho de sua tarefa profissional, sendo animados por um sentimento muito desenvolvido de honra corporativa, em que se realça o sentimento da integridade”. Para o autor, nos principais domínios do Estado Moderno, quais sejam, o financeiro, o exército e o jurídico, esses funcionários de carreira triunfaram definitivamente – sobretudo nos países centrais. Essas duas tendências opostas são expressões de dois tipos de funcionários típicos do Estado Moderno, os funcionários de carreira, legitimados pela sua competência, e o funcionário político.

    Feita essa distinção Weber fornece as bases históricas para o surgimento dos funcionários políticos. O homem de letras, o jurista, o jornalista, são profissionais políticos que estão em torno do “príncipe” para auxilia-lo; são contratados e subordinados a estratégia determinada por ele, e todos seguem seu chefe-político. O autor sugere nesse momento que na moderna democracia há uma mudança importante nesses funcionários, pois o antigo grupo de notáveis, como eram os conselheiros, são substituídos por especialistas voltados a política de massas. O jornalista e o advogado ganham destaque na organização do partido moderno, pois são as profissões que dão suporte ao tipo de político demagogo, mais comum no ocidente.

    Entrando, então, na análise do partido político moderno, Weber vai defini-lo como uma “empresa de interesses”, e defende que um dos fundamentos dessa organização é a distinção entre uma camada de políticos ativos, militantes, que são recrutados dentre a massa eleitoral que, por sua vez, é um corpo passivo que apenas, ocasionalmente participa. Essa distinção, entre poucos ativos e muitos passivos, é o fundamento dos partidos que se organizam em suas disputas como uma empresa e sobretudo, através da distribuição de cargos.

    Enquanto “empresa de interesses” o partido conta, como visto, com uma gama de políticos profissionais. Dentre esses Weber destaca o político carismático e os empresários políticos, ao estilo do boss norte-americano. O líder carismático é aquele que por seus dons pessoais e intransferíveis coloca-se a frente da organização política mobilizando e convencendo a maioria, fazendo seguidores. “Idealmente, uma das molas mestras é a satisfação de trabalhar com a dedicação pessoal leal por um homem, e não apenas por um programa abstrato de um partido constituído de mediocridades. Sob esse aspecto, o elemento ‘carismático’ de toda liderança funciona no sistema partidário”. Para Weber o desenvolvimento da máquina partidária nesses moldes leva a uma sofisticação que tende a sobrepor a captação de votos e recursos às questões programáticas, criando o que ele denomina de “partidos sem princípios”: uma organização de caçadores de empregos, recursos financeiros e poder.

    Já o “empresário político” é descrito por Weber como o gerente capitalista dentro da lógica partidária: “é o homem indispensável para coletar diretamente os fundos que os grandes magnatas destinam às organizações”, e quando não, é o próprio magnata o mandatário nos bastidores da máquina partidária. No entanto, para o autor, esses chefes são os mesmos que garantem certa eficiência ao partido e elevam a cena política homens capazes: “ou uma democracia admite como dirigente um verdadeiro chefe e, consequentemente, aceita a existência da máquina ou renega a máquina e cai sob os domínios dos políticos profissionais, sem vocação, privados das qualidades carismáticas que produzem líderes”.

    Feito esse longo percurso conceitual, Weber se detém, então, às questões diretamente relacionadas a vocação: quais as características necessárias ao político? Com essa pergunta em mente o autor afirma que três qualidades determinantes podem ser apontadas com precisão: paixão, sentido de responsabilidade e senso de proporção. O romantismo das grandes causas deve, então, estar conciliado à frieza e precisão da responsabilidade e da proporção. Weber nesse ponto é enfático ao dizer que “política se faz usando a cabeça e não as demais partes do corpo”, ou seja, mobilizar através da paixão não pode estar desconectado do cálculo da correlação de forças e das probabilidades de vitória. Quem não fizer isso, alerta o autor, corre grande risco de cometer os dois maiores pecados da política: “não defender causa alguma, e não ter sentido de responsabilidade”.

    Como último ponto de sua conferência, Weber, seguindo o exposto acima, abre uma questão sobre a relação entre ética e política: “qual é, independentemente de fins específicos, a missão que a política pode desempenhar na economia global da conduta da vida? Qual é, em outras palavras, o lugar ético que ela reside?

    Antes de mais nada, o autor afasta o que chama de conflagração vulgar: a ética utilizada como forma de culpabilizar o passado pelos fracassos ou vitórias presentes. A exemplo, Weber diz que não é raro o homem que abandona sua esposa por outra mulher justificar tal ato perante a própria consciência, afirmando que sua esposa não era digna de seu amor; tal justificativa não passa de um auto-engano que serve para fugir da constatação principal e colocar-se na posição de vítima, a verdade é que esse homem deixou de amá-la. E mesmo quando não é um fracasso mas uma vitória na qual o vitorioso diz “venci porque estava com a razão”, é tão enganoso quanto a atitude anterior. A culpabilidade do passado é uma ética vulgar que “não chega a se preocupar com o que se constitui no interesse próprio do homem político, isto é, o futuro e a responsabilidade diante do futuro”. Essa maneira de proceder é um crime político para Weber.

    Afastada essa possibilidade, o autor passa a definir duas máximas que são irredutivelmente opostas seja qual orientação ética se adote: a ética das últimas finalidades e a ética de responsabilidade. A primeira é exemplificada por Weber através da ética proposta na religião cristã: “o cristão cumpre seu dever [segundo os mandamentos bíblicos], e, quanto aos resultados, confia em Deus”. Diferentemente, a ética de responsabilidade se orienta pela responsabilização: “sempre devemos responder pelas consequências previsíveis de nossos atos”. Evidentemente, isso não quer dizer que a ética das últimas finalidades seja idêntica a irresponsabilidade, tampouco que a ética de responsabilidade seja idêntica ao oportunismo sem princípio. O importante aqui é distinguir que, enquanto a primeira visa às atitudes exemplares e coerente com os fins últimos; a segunda mede os meios existentes para se chegar a tal ou qual fim, aceitando que mesmo completamente distante um pequeno avanço é razoável. “Quem acredita numa ética de objetivos finais só se sente responsável por fazer que a chama das intenções puras não seja sufocada: por exemplo, a chama dos protestos contra a injustiça social”. Já quem segue a ética de responsabilidade busca sempre o cálculo e a medida para ver se suas ações têm resultado positivo, pois no final sempre dirá: “esses resultados são atribuídos a minha ação”.

    Dito isto, o autor defenderá que a política, tendo seu fundamento na dominação e no poder, conduz, invariavelmente a dilemas éticos. Nesse sentido, a violência é pedra fundamental, e Weber alerta: “quem busca a salvação da alma, sua e dos outros, não deve buscá-la no caminho da política, pois esta, por vocação busca realizar tarefas muito diferentes que não podem ser concretizadas sem violência”. Ou seja, a política de um ponto de vista ético leva sempre aos conflitos irreconciliáveis.

    No entanto, apesar de opostas a ética das últimas finalidades e a ética de responsabilidade se tocam e se conciliam diante de um líder com verdadeira vocação política. Pois mesmo os mais pragmáticos podem, aponta Weber, de forma humana e comovente, num determinado momento dizer: “Eis-me aqui; se não posso fazer de outro modo, aqui paro (…) Na medida em que isso é válido, uma ética de fins últimos e uma ética de responsabilidade não são mais contrastes absolutos e só em uníssono constituem um homem genuíno – um homem com vocação política”.

    Por fim, retomando a série de oposições entre a razão e a paixão inerente a vocação, Weber, no final de sua obra, define pela última vez a política, agora através de uma inspiradora metáfora, salientando seu caráter contingente, isto é, como luta de resultado indefinido para alterar a atual situação de coisas: “a política é um esforço tenaz e enérgico para atravessar grossas vigas de madeira. Um esforço desse tipo exige, a um tempo, paixão e senso de proporção. É perfeitamente exato dizer – e toda a experiência histórica confirma – que não se teria jamais atingido o possível, se não se houvesse tentado o impossível”.

  • Lulismo, pobreza e ideologia

    Lulismo, pobreza e ideologia

    Resenha publicada na Revista Lutas Sociais, número 29, sobre o livro de André Singer, Os sentidos do Lulismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

    Em corajosa abordagem que trata de analisar o fenômeno enquanto ele ainda está acontecendo, André Singer, em seu livro recente, apresenta um poderoso esquema interpretativo para dar conta das contradições de seu objeto: o lulismo. Famigerado, logo que aparece à baila, o fenômeno, diz o autor, é marcado pelo “signo da contradição”, apreendido apenas em movimento, pois é fruto de “matéria rebelde”1. A pergunta central do livro não é menor: o lulismo “incidirá sobre contradições centrais do capitalismo brasileiro abrindo caminho para colocá-las em patamar superior?” (p. 9).

    A hipótese central sobre a qual se estrutura a obra é a do realinhamento das bases eleitorais brasileiras. Entenda-se por realinhamento a ideia de que “certas conversões de blocos de eleitores são capazes de determinar uma agenda de longo prazo”, a qual abrange toda a arena política e pode durar décadas (p. 13). No caso brasileiro, as raízes do realinhamento se encontram na primeira fase do governo Lula, quando o conjunto de suas políticas sociais – em especial, o programa Bolsa Família, o aumento real do salário mínimo e o virtual aumento do crédito popular –, incidem positivamente na fração mais pobre da classe trabalhadora, o subproletariado. Do ponto de vista ideológico essa fração, alinhada historicamente à direita, quer melhorias sociais, mas desde que aconteçam dentro da ordem. Tal anseio encontra respaldo na administração petista, que, segundo Singer, cumpre um autêntico programa de classe (p. 76). Seja dito, não o programa de toda a classe trabalhadora, mas de sua fração mais pobre. O realinhamento eleitoral vem a público na reeleição de Luiz Inácio, quando se verificou que o chamado escândalo do “mensalão” afastou os votos de setores da classe média que historicamente eram do PT, revelando nas pesquisas que foram os mais pobres os responsáveis pelo segundo mandato. Na visão de Singer esse foi o “pulo do gato” de Lula: construir por trás de uma política econômica ortodoxa, uma substantiva política de promoção do mercado interno, favorecendo os de baixo. A nova agenda é a redução da pobreza, a nova gramática é a varguista e desenvolvimentista – recua o “partido dos trabalhadores”, funda-se o “partido dos pobres” (p. 34).

    Defendida com dados, sobretudo das pesquisas eleitorais desde 1989, a hipótese ganha força empírica. Não obstante, a autenticidade do livro está mais no conceito do que nos dados. O autor retoma o conceito de subproletariado cunhado por Paul Singer para explicar a estrutura de classes no Brasil2. Respaldado pelo livro três de “O Capital”, o subproletariado é a fração da classe trabalhadora cuja pobreza material lhe confere um caráter específico, pois, apesar dele estar inserido na produção, ou seja, trabalhar, é justamente por sua miséria que fica desprovido de meios de organização e capacidade de se impor politicamente. Por isso, é preciso uma força de cima pra baixo que o represente, para depois, ele mesmo reconhecer a sua representação. Na periferia do capitalismo, essa parcela é numericamente expressiva e possui um peso eleitoral decisivo para o jogo democrático. É essa fração da classe trabalhadora que elegeu Collor em 1989, mas que agora se alinha com o partido que negou.

    No entanto, não foi o subproletariado que rumou à esquerda, afinal esse não poderia andar com as próprias pernas. Foi o PT no seu percurso de governo que se alinhou a esse ideário mais conservador, embora popular. Atualizando a questão que ficara aberta em publicação sobre o PT há mais de uma década3, Singer vê dois sistemas de crenças, ou melhor, espíritos opostos no seio do mesmo partido (p. 97). O espírito de fundação do PT, classista e socialista, que recebe o nome do colégio onde se fundou a agremiação, Sion. E outro, pragmático, comprometido com o capital e substancialmente eleitoral, cuja expressão mais acabada é a Carta ao Povo Brasileiro de 2002. Documento, aliás, que, em reunião do Diretório Nacional, pouco antes da vitória, foi elevado de material de campanha a programa de governo. O local da ocorrência do fatídico transformismo dá nome ao segundo espectro, Anhembi. Apesar de internamente no PT ainda haver significativa militância anticapitalista, é o espírito do Anhembi que ganha força no governo federal e o que parecia passageiro se converte em orientação permanente. O realinhamento eleitoral é a principal força motriz dessa mudança no partido, ele que dá carne e osso ao espírito do Anhembi, e leva a um aumento do contingente de militantes realinhados. Ao mesmo tempo, é responsável pela popularização do PT, pois a base de simpatizantes também deixa de ser predominantemente de classe média e passa ao subproletariado. A sugestão do autor é que a “Era Lula” foi a síntese, mesmo que provisória, das duas almas do partido.

    Assim, o lulismo vai para dentro de PT e ganha caráter de projeto societário. Enquanto tal, ele carrega uma autocontradição, pois sua realização significaria o fim de sua própria sustentação política: o subproletariado. Nesse ponto, a diferenciação entre pobreza e desigualdade é divisor de águas. A pauta central do subproletariado é a diminuição da pobreza, cuja relação com a diminuição da desigualdade existe, contudo não leva necessariamente a uma sociedade mais igualitária, seu limite é uma sociedade sem pobres. É o proletariado, por sua vez, que tem entre suas pautas a diminuição da desigualdade e poderia levar a cabo mudanças mais radicais na sociedade.

    Entretanto, enquanto está em curso, o realinhamento coloca em segundo plano o principal antagonismo de classes, dando ao lulismo força de arbitragem, desde que haja crescimento econômico, entre duas coalizões. A primeira, chamada de coalização produtivista, une industriais e operários para o aumento do emprego e da produção industrial em terreno nacional. E a segunda, com maior poder de fogo, chamada de coalizão rentista, une as organizações do capital financeiro e do agronegócio. A integração do subproletariado ao proletariado através do fortalecimento do mercado interno, com expansão do crédito, agrada e legitima a arbitragem do lulismo sobre essas coalizões. Está montada a cena: posto no fundo do palco, sob a penumbra das cortinas, burgueses e proletários dão às mãos; os pobres, iluminados pelo slogan “venham fazer parte da nova classe média”, identificam no lulismo a sua própria voz; sobra para a oposição encenar o “partido dos ricos” e representar de forma acanhada a direita conservadora. O livro é mais sóbrio e prescinde do slogan, ao mesmo tempo, dá mais vida para a maquete acima.

    Montado o esquema interpretativo, Singer busca tirar todas as consequências possíveis do enredo. Do que vale destacar nesse espaço, é que o caráter contraditório do lulismo, detalhado pelo autor, legou a esquerda brasileira uma ironia do destino, ou melhor, um autêntico enigma da esfinge: no momento em que um projeto reformista, mesmo fraco, avança na redução do subproletariado, aumentando o contingente proletário, a luta ideológica parece recuar para um estágio anterior ao conflito capital/trabalho (p. 219).

    Por fim, não é exagero dizer que a obra abre muitas portas para as ciências políticas, pois se inscreve como continuidade de produção acadêmica nos moldes apontado por Roberto Schwarz (1998). O dialética como lógica privilegiada das ciências humanas é ponto forte, assim como a compreensão de que o desenvolvimento da história procede por avanços e recuos combinados, além de outros pontos que essa boa leva da Escola Paulista de Sociologia nos legou.

    Bibliografia:

    SINGER, André (2001). O PT. São Paulo: Publifolha.

    SINGER, Paul (1981). Dominação e Desigualdade. São Paulo: Paz e Terra.

    SCHWARZ, Roberto (1998). Um Seminário Marx. Novos Estudos. São Paulo, n. 50 São Paulo: Cebrap.

    Notas:

    1“Matéria Rebelde” é o termo elaborado pelo professor Gildo Marçal para qualificar o PT. O adjetivo é resgatado por Singer.

    2Paul Singer (1981).

    3Andŕe Singer (2001).

  • Reflexões sobre a leitura de “O Contrato Social” de Jean-Jacques Rousseau

    Reflexões sobre a leitura de “O Contrato Social” de Jean-Jacques Rousseau

    rousseau

    A experiência da leitura de “O Contrato Social” foi de contato com uma teoria política que está localizada na fronteira entre o romantismo e o realismo. Pois ora se ergue fortes argumentos em favor da democracia direta e irrestrita como única possibilidade de efetivação da liberdade, e ora essa mesma liberdade é posta a longas léguas das possibilidades políticas ao homem em sociedade. Em outras palavras, a sensação foi de que há um pêndulo argumentativo na teoria de Rousseau que vai da radicalidade da crítica e do objetivo a se alcançar através da política, e a volta a dura realidade das possibilidades colocadas ao homem, sobretudo, o homem burguês que nada investe a não ser pelo lucro e o proveito próprio. Esse movimento, creio eu, já pode ser encontrado na famosa frase com que o autor abre o Capítulo I do Livro I: “o homem nasce livre e em toda parte é posto a ferros”. Num primeiro momento, a liberdade existe, aliás é inata, contudo estamos postos a ferro e constrangidos pela sociedade.

    Essa primeira frase também contém o problema que Rousseau está se colocando a resolver na obra, qual seja, como, vivendo em sociedade, o homem pode ser livre? Seguindo os passos de Milton Meira do Nascimento, em texto sobre o autor, se no livro “Discurso sobre a Origem da Desigualdade”, Rousseau se preocupa em fundamentar como a sociedade corrompe os homens, posto que esses naturalmente nascem bons e valorosos, é no livro “O Contrato Social” que o filósofo vai propor o caminho de volta. Isto é, como a sociedade, que ora corrompeu o homem e constrangeu sua liberdade, pode, digamos, botar-lhe em contato com sua própria natureza e dar-lhe novamente a liberdade, não mais a natural pois essa ficou para trás, mas uma superior, a liberdade civil?

    Diferente do que se estabeleceu vulgarmente sobre o autor, o caminho à liberdade civil não se dá através da Democracia por excelência. A Democracia para Rousseau é mais uma forma de governo cuja eficiência para a realização de uma verdadeira República de cidadãos livres depende de diversos fatores como a quantidade da população, a capacidade produtiva, os costumes, o grau de desigualdade entre os habitantes, etc. Ou seja, não há uma forma de governo definitiva ou ideal. Aliás, esse é um ponto forte, pois qualquer democrata fervoroso se surpreenderia com a afirmação do autor quando diz que “se houvesse um povo de deuses, ele se governariam democraticamente. Um governo tão perfeito não convém aos homens”. Eis o realismo que apontei e o pêndulo a funcionar. Contudo, essa afirmação serve para dar ênfase de que a questão de Rousseau não se resolve de uma forma simples, como elegendo uma forma de governo.

    O ponto principal é que, os homens, ao se depararem com todas as dificuldades da vida – no “estado de natureza”, onde reina o egoísmo e competição –, ao ponto de verem ameaçada sua própria sobrevivência, percebem que vão perecer se não mudarem sua maneira de ser. Sendo um contratualista, Rousseau utiliza a lógica do contrato para entender os movimentos da sociedade. Assim, a questão que os homens se colocam é expressa da seguinte maneira, como uma necessidade objetiva, é preciso:

    “Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda a força comum a pessoa e os bens de cada associado, pela qual cada um, ao unir-se a todos, obedeça somente a si mesmo e continue tão livre quanto antes”.

    Esse é o problema que o contrato social pode resolver. Mas antes de chegarmos ao contrato propriamente dito, vejamos com calma o duplo problema que a humanidade se colocou no seu desenvolvimento segundo o autor. A primeira parte da questão é a mesma que inspira Hobbes, qual seja, “uma forma de associação que defenda e proteja com toda força comum a pessoa e os bens de cada um”, isto é, um Estado soberano que garanta a segurança e a produção da vida e das pessoas. É na segunda parte da proposição que Rousseau avança, pois a associação deve ser de tal forma, que além de garantir a vida deve garantir a liberdade, pois “o homem deve obedecer somente a si mesmo e continuar tão livre quanto antes”. Para Hobbes isso é impossível, pois a liberdade é justamente a razão da guerra e da miséria humana, o Estado hobbesiano se baseia na alienação da liberdade que é entregue ao Soberano. Rousseau, ao contrário, defende que a questão sobre a liberdade não se resolve dessa forma, pois nenhum homem pode entregar sua liberdade, essa é uma falsa questão, pois ela é inata e se alguém o fizer dessa forma não está em pleno juízo. Por isso a segunda parte do problema tem de ser respondida: como viver em sociedade em liberdade?

    O contrato social proposto por Rousseau para resolver a questão – através do qual se funda a sociedade política e o homem deixa o “estado de natureza” e passa ao “estado civil” –, parte da alienação total de cada associado, com todos os seus bens, à comunidade inteira: “cada um de nós põe em comum sua pessoa e todo o seu poder sob a suprema direção da vontade geral; e recebemos enquanto corpo, cada membro como parte indivisível do todo”. Eis a “vontade geral”, a força possível de se submeter sem perder a liberdade. No lugar da pessoa particular de cada contratante, ergue-se um corpo moral e coletivo, um “Soberano”, um “eu” comum, a unidade possível de um Povo. Esse é o ato fundante do Estado Civil, cuja base não é outra senão a “vontade geral” do Povo que se sobrepõe as vontades particulares – essa última a razão da corrupção, do egoísmo e do fim da própria sociedade. Para que ocorra o contrato social este deve ser consensual e estabelecido entre iguais. Aliás, esse é o único contrato que não pode ser votado, toda a assembleia deve estar de acordo, pois quem não estiver será um estrangeiro.

    A única saída para que a liberdade não fique constrangida pelas vontades particulares é o pacto através do qual os homens se submetem à “vontade geral”. Quando esses criam o Estado é justamente para sair da miséria criada pela sobreposição da vontade particular à vida, e elevar-se a uma condição moral superior. Para Rousseau, e para o horror dos burgueses, é na esfera pública que a liberdade deve estar garantida; o homem que caminha pela sua cidade quando bem quer, conversando e refletindo sobre filosofia e literatura com seus iguais, e se preparando para a próxima assembleia, pensando as leis do país, esse é um homem livre. A espera privada, por sua vez, não pode dar ao homem a verdadeira liberdade, pois ela é individual e está garantida sem nenhum esforço, não é um problema verdadeiro, afinal, sentir-se livre na esfera privada não acrescenta em nada ao bem comum, motivo fundamental da associação entre os homens.

    O contrato social rousseauniano, do ponto de vista legislativo, é um salto de qualidade à reflexão sobre liberdade. Pois sendo o Estado o instrumento de governo da “vontade geral”, suas leis só podem ser expressão da liberdade de seu povo, pois é ele quem dá legitimidade, em suas assembleias, às leis. Seguindo a frase do autor, “um homem que segue suas próprias leis é um homem livre”. Igualmente será livre um povo que segue as leis que ele mesmo escolhe. Ao contrário da teoria de Hobbes, na qual a lei é um constrangimento à liberdade, em Rousseau a lei é a expressão dessa mesma. Por sua vez, o principal constrangimento à liberdade colocado pelo filósofo é a dependência material, por exemplo, de uma criança em relação a sua família. Contudo, no momento em que os filhos saem de casa e vão viver por conta própria estão libertos. Justamente por isso os homens só podem ser livres quando dependerem deles mesmos e, para isso, devem se guiar pela “vontade geral”, pois essa é a vontade soberana de um povo. A contradição tipicamente hobbesiana entre o indivíduo que quer fazer o que bem entende e a sociedade que o limita e constrange, é resolvida por Rousseau questionando se essa vontade do indivíduo é legítima, pois ela é excessivamente particular, e na verdade, não é expressão da liberdade, mas é um desvio moral que é preciso se alertar, pois é justamente essa vontade particular que corrompe os homens.

    Sendo fruto de um contrato, todos os membros da sociedade quando percebem que o Estado não está se guiando pela “vontade geral” e não mais cumpre com a razão de sua criação, podem desfazer a sociedade e voltar ao “estado de natureza”. Antes disso, é possível também destituir os membros do governo e dar-lhe novos. Para o Rousseau os governantes são funcionários do povo, e se eles não cumprem com sua função devem sair do cargo. Contudo, é preciso cuidado com a metáfora do governante-funcionário, pois essa tarefa é apenas executiva, deve garantir a efetivação da “vontade geral”, mas quem é a voz é o povo, e este tem que falar. Isso nos leva ao debate da representação que para Rousseau é uma falsa ideia, pois a vontade geral não é representável, ou delegável a outrem que não seu fundamento: o próprio povo. Ou este exerce a soberania e dita o que deve ser feito ou ele apenas acha que é livre quando, na verdade, é escravo de seus representantes. A “vontade geral” não se representa, ela é a mesma, pela voz dos contratantes, ou é outra.

    Essa questão é cara para nossa atualidade pois vivemos numa democracia representativa, e seguindo esse pressuposto rousseauniano a democracia só é efetiva se ela é extremamente participativa. Para o autor, creio que ele diria, o que vivemos no Brasil e na maioria absoluta das democracias modernas é uma forma de governo próxima da aristocracia eletiva, e o grau de liberdade é baixo, pois apenas votamos nos que realmente governam e não governamos. Aliás o dito comum que chama a atenção do cidadão que só é livre na hora do voto é de autoria do filósofo já em meados de 1760: “o povo inglês pensa ser livre; está muito enganado, pois só o é durante a eleição dos membros do parlamente; tão logo estes são eleitos, ele é escravo, é nada”.

    A principal questão da representação é que a vontade geral é impossível de representar. Pois na prática o conjunto de eleitos vão inevitavelmente se guiar pela vontade particular do próprio conjunto e não do todo do corpo político (os cidadãos e os membros do governo), afinal quando há representantes os cidadãos já não fazem mais parte do corpo político, apenas o escolhem. Para Rousseau o próprio governo executivo, tende a sobrepor as vontades particulares a “vontade geral”, pois é uma tendência inevitável que deve ser controlada pelos cidadãos que, como dito, podem substituir a qualquer momento os membros do governo. Já uma Câmara de Debutados representativa é uma aberração e significa o declínio da República.

    Vale dizer que o único papel do corpo político no qual a vontade particular e a vontade geral estão imbricados de maneira a ser aceito é o do legislador. Esse que escreve e elabora as leis, deve ser escolhido pelo povo por ser um homem valoroso e de aptidões individuais excepcionais. O próprio Rousseau foi legislador, e fez a constituição da Ilha de Córsega, local, diz ele, “onde reina a democracia e um Estado de cidadãos valorosos, o único lugar que promete grandes avanços ao mundo ocidental”. Julgamento que se confirmou parcialmente correto, pois foi da Córsega que veio Napoleão, o Príncipe modernizador de toda a Europa, décadas após a morte do filósofo.

    Essa tendência ao corrompimento do governo dá movimento cíclico, como em Maquiavel, a vida política dos homens. Para Rousseau as Repúblicas, o Povo, são como os homens: envelhecem com vícios difíceis de mudar, sendo preciso morrer e renascer para começar um novo ciclo virtuoso. É preciso uma revolução, uma guerra civil, para alterar os vícios de um Povo. Ainda em consonância com Maquiavel, o ator reconhece que, apesar de não existirem formas de governos nem perfeitas nem perversas em si, a monarquia carrega uma tendência maior, por conta do excesso de poder do monarca, a degeneração. Pois o interesse pessoal dos Reis se sobrepõe inevitavelmente a vontade geral. Isso é o que Maquiavel fez ver com evidência, nos alerta o moderno filósofo. Saudando o italiano defensor da República tal qual ele, Rousseau afirma que “ao fingir dar lições aos reis [Maquiavel] deu grandes lições aos povos”.

    Por fim, Rousseau é um pioneiro em muitas elaborações que fazem parte da vida política atual. Uma delas, e das mais importantes, é a defesa do Estado laico. Afirma o autor que o Estado deve ser tolerante com as religiões que forem também tolerantes com o conjunto de crenças diferentes entre si no seio do Povo. Avançando o sinal, para Rousseau a religião é uma questão da esfera privada e não tem nada que ver com o Estado. Por conta dessa elaboração, ao final do Livro IV de “O Contrato Social”, o filósofo pagou caro, pois foi expulso de vários países, inclusive de sua terra natal. Mesmo que ainda, na mesma parte, advirta que um Estado Religioso cujos cidadãos através de sua crença amem seus deveres, as leis e a vontade geral, seja um Estado virtuoso; e se esse Estado garantir através da religião esse dogma, está garantida a liberdade. Rousseau foi perseguido pelas suas ideias e atividades políticas. E certamente o romântico e o realista sempre andaram juntos.

  • Reflexões sobre a leitura de Leviatã de Thomas Hobbes

    Reflexões sobre a leitura de Leviatã de Thomas Hobbes

    hobbes

    A principal dificuldade que encontrei na leitura de Leviatã esteve em perceber os pressupostos filosóficos a partir dos quais Hobbes estrutura a obra. Ao me deparar com uma ideia de estado de natureza onde os homens vivem em constante guerra de todos contra todos, me perguntei automaticamente quando isso ocorreu na história da humanidade. Igualmente, questionei quem foi que redigiu o primeiro contrato que fundou o Estado e a Sociedade.

    Relendo a primeira parte da obra, onde ele expõe seus princípios filosóficos, percebo que essas perguntas à teoria política de Hobbes não fazem sentido, pois para o autor a teoria prescinde da história na medida em que ela expressa a realidade não específica mas geral da humanidade. Tal como na matemática e na geometria não faz sentido perguntar onde encontramos o triângulo na história das coisas, afinal o triângulo é uma forma ideal que não se encontra nas formas da natureza. O mesmo procede em relação ao estado de natureza, pois ele é uma forma pura e abstrata que não descreve a realidade de um momento, mas diz sobre todos os momentos, aliás, é uma ameaça constante. Portanto, os conceitos de Hobbes não têm caráter histórico, mas são a narrativa mais efetiva a partir da abstração, ou melhor, da imaginação.

    Para o autor de Leviatã a imaginação é o que faz os homens moverem-se por si mesmos, são as forças internas de um homem. É o que o torna capaz de ir além do natural e criar algo autêntico e próprio à humanidade:

    “(…) imaginando seja o que for, procuramos todos os possíveis efeitos que podem por essa coisa ser produzido ou, por outras palavras, imaginamos o que podemos fazer com ela, quando a tivermos”.

    Para Hobbes é essa a capacidade humanada, a imaginação, que nos distingue dos animais. Assim, sua própria obra advêm da imaginação, instrumento que possibilita explicar a realidade criada pelo próprio homem: a sociedade e o Estado. A partir desses pressupostos, descritos aqui a grosso modo, ele ergue um sistema abstrato que explica a realidade política dos homens. É a partir desse ponto de vista que devemos considerar os conceitos da obra, isto é, conceitos livres de historicidade e carregados de capacidade explicativa e de realidade.

    Junto a esse pressuposto sobre a imaginação como motor da criação do homem e das coisas que o homem faz, Hobbes considera uma natureza humana estática. Diferente de Aristóteles que vê diferentes naturezas em homens diferentes – o mais poderoso tem uma natureza superior ao mais subalterno –, para Hobbes todos os homens têm a mesma natureza e essa é imutável. O que difere um homem do outro são seus desejos, sua imaginação.

    Todos os homens nascem livres e iguais. Livres para fazerem o que quiserem e iguais nas capacidades físicas e mentais. Essa condição inata de igualdade e liberdade, ao contrário do que possa defender um moralista, são elementos suficientes para colocar os homens em constante guerra de todos contra todos. Pois, sendo os homens livres para buscarem realizar seus desejos e iguais em capacidades – já que o forte pode sucumbir ao fraco pelo uso da razão –, todos estão ameaçados, uns pelos outros. Pois é inato também aos homens um direito natural, qual seja, o de preservar sua própria natureza, isto é, sua vida. Eis o estado de natureza, é o momento no qual preservar a própria vida, fazer cumprir o primeiro direto natural, envolve se precaver do outro, desconfiar do outro, pois não há garantia de que o outro não vá, para a própria sobrevivência, lhe roubar o pão e a prole. É o estado de desconfiança e insegurança completa, pois não há nenhuma força que assegure a vida dos indivíduos que não eles mesmos.

    No estado de natureza reinam a traição, a covardia, o medo e a guerra. Pois os homens assim desimpedidos, em plena liberdade, utilizarão de todos os meios para preservarem suas vidas em detrimento da vida do outro, não porque que sejam naturalmente perversos ou maldosos, pelo contrário, justamente por ter igualdade e liberdade em sua natureza ele sabe que o outro é uma ameaça, e racionalmente o melhor que faz é entrar em guerra contra aquele que o ameaça, afinal não há nenhuma garantia que não a sua própria força. Para Hobbes os homens são racionais e calculam os interesses do outro, e imaginam o que o outro pode fazer nesse estado de plena liberdade – liberdade no sentido físico, de desimpedimento para algo –, imaginam a traição, a sabotagem, a farsa, a mentira, todos essas ações verificadas pela experiência de viver no estado de natureza da humanidade. Essa realidade é a guerra civil.

    Para sair desse estado de terror, os homens podem por meio de sua racionalidade fazerem um pacto, ou melhor, um contrato social através do qual todos abrem mão de sua liberdade, a qual fica entregue a um soberano, seja ele um homem ou uma assembleia, para assim conquistarem a paz. Até o momento antes do pacto, o estado de natureza, a sociedade não existia, pois era o reino da guerra e da dispersão. A partir do momento em que a liberdade está entregue ao Estado é possível viver em sociedade. Isso quer dizer que Estado e sociedade para Hobbes são coisas inseparáveis, pois só é possível socializar-se e desenvolver plenamente as atividades humanas sob um Estado que garanta a paz.

    Sob um Estado, os homens agora não podem mais fazer o que bem entendem, pois este direito está nas mãos de um soberano. Por sua vez, o soberano pode fazer o que bem entender, desde que não ponha a vida dos súditos em risco – para Hobbes há o soberano, todos os outros são súditos. Caso isso aconteça os homens podem defender sua própria vida e retomarem seu direito de natureza. Evidentemente que um homem que atentar sobre a vida de outro será punido, pois o soberano está para garantir a preservação da paz e defender a vida de seus súditos, tanto das perturbações internas ao governo quanto dos invasores estrangeiros.

    É possível verificar no esquema que Hobbes monta para explicar a origem do Estado uma contradição explícita na enunciação do primeiro direito natural, contradição essa que guia o desenvolvimento do sistema. O meio pelo qual o direito se realiza – todo homem é livre para fazer o que bem entende – está em contradição com o fim – preservar a própria vida. Posto dessa forma, não há outra solução do que abrir mão dessa contradição, isto é, abrir mão desse direito e entregá-lo a um outro, que resolva a equação. Isso significa que Hobbes projeta na natureza humana uma contradição de partida, um conflito entre a busca da plena realização do desejo individual e a paz social.

    Não à toa, a única possibilidade para uma vida melhor é abrir mão da realização dos desejos e dar a um outro o julgamento sobre si mesmo. É justamente por abrirem mão de seu direito natural que os homens passam à sociedade e podem agora desenvolver as habilidades que estavam limitadas pela guerra. O Estado hobbesiano é, ao mesmo tempo, a repressão dos desejos e a salvação do terror. Salvação que só ocorre através de um contrato social, isto é, através do livre arbítrio dos homens, de sua vontade e de sua racionalidade. Não é por desígnio divino, ou por qualquer acaso, que os homens vivem em sociedade, mas é porque conhecem o terror e racionalmente escolhem um governo que os regre e dirija. Dessa forma, o Estado não é natural, pelo contrário, é um artifício criado pelos homens para sair do estado de natureza. Pois o medo é o medo de voltar a guerra civil. Por isso os homens disciplinados e de bom comportamento vivem bem sobre um Estado. É para superar o medo que os homens fazem um contrato social, na esperança de criar condições concretas para sair do terror e da guerra.

    Em traços grossos, esse é o sistema erguido por Hobbes, cuja estrutura e arquitetura é indestrutível caso não seja questionado os pressupostos pelos quais ela se ergue. Nos distanciando um pouco dessa teoria e tentando vê-la com olhos críticos, é preciso considerar que um sistema abstrato que explique o comportamento político humano como o de Hobbes reduz à fantasia uma infinidade de questões políticas cujas consequências e fundamentos estão muito além da lógica do contrato e do direito. Não obstante, é importante levar em conta que a teoria política de Hobbes despe o agir humano de julgamentos morais, e vê através da racionalidade as possibilidades políticas de se resolver tal ou qual situação. Além disso, consegue operar conceitos caros a modernidade, quais sejam, igualdade e liberdade, esvaziando seus conteúdos de valores morais, e tenta entendê-los como dados objetivos da realidade. A igualdade garante que todos sejam suficientemente capazes de se defender e de atacar, e a liberdade garante que todos estejam, a princípio, desimpedidos de fazer o que bem entendem. Esse ponto de vista objetivo faz contrate com o significado positivo que essas palavras ganharam com o tempo.

    Por fim, é preciso considerar que Hobbes é um homem prático, e que seu sistema funciona para o fazer da política conservadora. Por exemplo, quando levantamos uma questão pertinente para nosso tempo: por que o Estado, ao invés de ser fruto de um contrato entre iguais, não nasce da imposição de um grupo sobre o outro? Hobbes responderia, se a guerra acabou e temos um Estado, é porque todos aceitaram, caso haja quem não aceite, pois que pegue em armas, recomece a guerra e carregue todos de volta ao estado de natureza.

     

  • Reflexões sobre a leitura de “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel

    Reflexões sobre a leitura de “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel

    maquiavel

    A primeira coisa que me chama a atenção nessa obra é o fato de seu conteúdo extrapolar sua forma. “O Príncipe” é um manual, uma carta de recomendações, feita por alguém que pretende voltar a vida pública e retomar o cargo que perdera. Como pode tal empreitada se tornar um clássico da teoria política? Ao meu ver, isso só ocorre pois o conteúdo da “carta de recomendações” é avançado e extrapola os limites que ele mesmo se propõe. Afinal, em “O Príncipe”, há um sistema de conceitos que elevam a política a objeto próprio do pensar, dando condições para o leitor se apropriar de algo que até então lhe estava alheio: o fazer da política enquanto técnica e objeto próprio.

    Esse ponto de vista, inovador, que vê o fazer da política como técnica, desprovida de fetiches, isto é, como dado da realidade, é motor de uma desmistificação da própria política. Arrisco dizer que essa desmistificação seja a grande força de “O Príncipe”, pois permite a todos pensar essa técnica – na medida em que a retira dos Céus ou do Olimpo para pôr-lhe entre os homens, e só entre eles. Maquiavel faz isso, a começar pela definição das motivações que guiam os homens na luta política: “O desejo de conquistar é coisa verdadeiramente natural e ordinária e os homens que podem fazê-lo serão sempre louvados e não censurados”.

    O poder político é de origem humana e não divida; a luta política é uma luta entre homens e seus diferentes interesses em tornarem-se mais poderosos, não pelos Deuses, mas por eles mesmos. Essa origem mundana da política e do próprio Estado, enquanto instituição que organiza o poder, é o ponto de partida da desmistificação. Para Maquiavel, as próprias regras políticas são fruto da correlação de forças entre os que disputam o poder. Tendo os homens por natureza o desejo da conquista, não há ponto de descanso, não há espaço vazio, não há elemento na vida que não esteja em disputa e fora do tabuleiro, não há nada que esteja a salvo do conflito. Como diz Carlos Drummond no poema “Nosso Tempo”, é a política na maçã.

    Justamente por isso o conflito é a matéria da política, é sua propriedade fundamental. Assim, a ideia de evitar o conflito é tão ingênua quanto enganosa. O que leva Maquiavel a fazer afirmações do tipo: “[o príncipe] também se torna estimado quando sabe ser verdadeiro amigo e verdadeiro inimigo, isto é, quando abertamente se declara a favor de alguém e contra outrem. Esta resolução é sempre mais vantajosa do que permanecer neutro”. Ou seja, assumir o conflito é sinal de compreensão da realidade e leva à boa estima. Terá virtù quem fizer isso. Como diz o conselho popular: é preciso escolher os inimigos tão bem quanto os amigos.

    E aqui entramos no segundo ponto forte da desmistificação da política operada em “O Príncipe”, a relação entre a fortuna e a virtù. Diz o autor: “para que não se anule o nosso livre arbítrio, eu, admitindo embora que a fortuna seja dona da metade de nossas ações, creio que ainda assim, ela nos deixa senhores da outra metade ou pouco menos”. Isso quer dizer que, pelo menos, metade da responsabilidade da posição que um ator político ocupa é dele próprio, é de suas escolhas que provém seu sucesso ou seu fracasso. A fortuna, isto é, a conjuntura histórica e social, as condições que não controlamos, de certa forma a própria realidade – no exemplo que ele mesmo utiliza, a fortuna é tanto uma inundação que arrasa uma vila ou quanto uma colheita farta por conta de bom clima – esta sorte ou infortúnio, determina apenas parcialmente o destino do jogo político, pois a outra parte está determinada pela virtù dos jogadores.

    Dito isto, e posto que o conflito é a matéria própria da política, para Maquiavel, aquele que se deixa levar por uma maré de boa fortuna, ou que espera bons tempos como uma bênção divina, esses vencerão ou fracassarão ao sabor dos ventos, e o tempo sempre cuidará de lhe dar fim. Mas aqueles cuja atenção é redobrada na realidade e buscam nas escolhas prever as tempestades poderá com mais êxito vencer e manter o que conquistam. Por isso, diz ele: “é preferível ser arrebatador a cauteloso (…). A experiência ensina que ela [a fortuna] se deixa mais facilmente vencer pelos indivíduos impetuosos do que pelos frios. Como mulher que é [a fortuna na mitologia Grega], ama os jovens, porque são menos cautelosos, mais arrojados e sabem dominá-la com mais audácia”. A experiência diz que o virtuoso é aquele que domina a fortuna; é aquele que altera o seu destino ao invés de aceitá-lo como dado.

    Assim, o cenário montado por Maquiavel é de intensa disputa, conflitos, e homens que se aliam, se desaliam e se matam por poder. Um cenário tão real quanto nos diz a experiência, seja naquela época seja hoje. A política, enfim, é tão comum quanto a árvore e a pedra, não há espanto e nem moral, em suma, é uma questão de correlação de forças. Como gosta o autor, é preciso observar a realidade e analisá-la até chegarmos a “verdade efetiva” das coisas, e não se enganar com o “deveria ser assim”, “deveria ser assado”.

    Contudo, é preciso tomar cuidado com a má fama do autor. Pois, para Maquiavel, o conflito, a disputa, a tensão entre a virtù e a fortuna, não diz necessariamente que o homem vive sempre sobre um mundo caótico e indomável, nem que as pessoas sejam sempre submissas aos mais fortes. O conflito é a matéria pela qual se criam regras, e se pode chegar a acordos que estabelecem patamares superiores de relações, nas quais os conflitos estão regulados. Tanto é que a República, para Maquiavel, é o melhor governo, pois ela pressupõe um povo virtuoso, um povo que escolhe seu príncipe para bem governá-lo. O príncipe, por sua vez, tem que ser o mais virtuoso entre os seus para cumprir com a fortuna de governar tal povo. Contudo, esse bom governo, de certa forma harmonioso e pautado pela liberdade, não significa de modo algum fim dos conflitos, principalmente ao príncipe, pois a política é guerra constante e ininterrupta.

    E guerra em dois sentidos. Um já vimos e diz sobre a natureza dos próprios homens. O outro, que se soma a esse, é de natureza social e diz sobre uma constante instabilidade, pois em todas as sociedades há duas forças opostas, uma que “provém de não desejar o povo ser dominado nem oprimido pelos grandes, e a outra de quererem os grandes dominar e oprimir o povo”. Diante dessa equação o pensamento político de Maquiavel tende a buscar a estabilidade desses conflitos – não sua anulação –, justamente por assumi-los. Esse fator de instabilidade social cuja razão está em “não querer ser oprimido nem dominado”, leva Maquiavel a dedicar as “recomendações” de sua obra “O Príncipe” no sentido de manter um Estado estável e duradouro.

    De qualquer forma – e essa é a grande vantagem de Maquiavel –, esses conflitos não tem ponto de descanso, o que eleva a política a totalidade da vida, pois é preciso conviver com o conflito, para, no máximo, domesticá-lo. E é justamente nessa dura luta e jogo de correlação de forças que se abre possibilidade de avanços. E quem sabe assim a virtù domine a fortuna e o homem consiga no desenvolvimento de suas tensões sociais estruturar uma sociedade superior a que conhecemos. Vale a ênfase em dizer que essa possibilidade está aberta para o autor. Sem perder de vista que a guerra, isto é, a política, não é uma escolha, mas sim uma verdade efetiva da vida dos homens.

  • Notas sobre o mensalão

    O chamado mensalão tomou proporções maiores do que a própria direita esperava. A condenação por formação de quadrilha, por exemplo, é um disparate. Como diz Zé Dirceu “fui condenado por ser ministro”. Está desproporcional a cena brasileira: o Zé Dirceu e Genuíno condenados, por “domínio do fato”, que no fundo quer dizer, sem provas, e outros como o Maluf, procurado pela Interpol, tirando foto com o Lula.

    A determinante da situação será a postura do PT sobre o mensalão. Duas possibilidades se desenham a partir das condenações. A primeira, é  uma saída eleitoral. Para garantir o crescimento que vem tendo, num primeiro momento, o partido vai calar sobre o assunto, aliás, como vem fazendo. Num segundo momento, poderá assumir um discurso conservador, dizendo que limpou no seu governo o que estava sujo, e que pior são os tucanos que carregam a sujeira no bico! Para mimetizar o tom agitador de Lula.

    A outra possibilidade, é o PT se posicionar contra o Estado, e mesmo que perca boa parte dos votos que lhe resta da classe média, se mobilizará para reformas mais radicais, como a famigerada reforma política, por exemplo. Tudo isso, para não deixar que a direita escreva a história do país como quer.

    A que está em curso é a saída eleitoral. Em recente reunião foi adiada uma carta protesto contra a decisão do Supremo Tribunal Federal. De qualquer forma, a condenação de militantes históricos é o preço que a direita cobra por perder a direção da hegemonia burguesa. Não obstante, do ponto de vista da guerra que a política significa, o PT ainda está na vantagem. Entretanto, a maneira como irão reconstruir a história do Brasil, coloca para o partido questões sérias sobre o que sobrou de sua integridade ética, isto é, se vai as ruas ou venderá seus fundadores, por votos e cargos.