Categoria: literatura

  • Estação Eliot

    Não ignoro a vaidade da beleza e da altura. Com os cuidados de não construir na aparência uma expectativa maior do que se realiza para além dela. O cuidado de não criar uma um círculo vicioso que se alimenta da expectativa positiva diante do que ainda não se realizou, e no momento que se realiza se revela a ilusão ou engano, e por isso é antes de tudo uma falsidade. Sabendo disso, a vaidade pode ser positiva na sua acepção de auto satisfação ou orgulho próprio. É a certificação de sua própria capacidade de realização de si mesmo. Ou como vaidade mesma: a ilusão de um ponto fixo que lhe assegure o desejo de si e de ser desejado por outros.

    Vaidade que nos revela que a ilusão diante da aparência de si mesmo é garantida. A possibilidade do auto engano está dada no momento mesmo do estabelecimento da segurança sobre o desejo de si e do outro. Pois qual segurança há diante do desejo que só se revela no momento mesmo em que se realiza? Qual o caminho a percorrer para se enxergar diante dos outros como a figura exacta que se quer ser? Como enxergar os outros na sua exactidão e ser contra a falsidade? Como não se deixar seguro pelo impulso enganoso da segurança vaidosa? Como compreender as correntes submarinas que está a nos roer os ossos em sussurros?

    Questão posta a gentios e judeus, a sorte está lançada.

    Imagine Flebas, subindo e descendo no torvelinho de água, afogando-se. Seu passado, sua maturidade e sua juventude, passando por ele até sucumbir no torvelinho. O desafortunado Flebas. Imagine seus ossos sendo roídos pela corrente submarina, subrepticiamente tomado pela água da cabeça aos pés. Imagine Flebas esquecendo-se do choro das gaivotas, da profundeza do movimento das ondas, dos lucros e dos prejuízos.

    Considere Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.

     

    in Waste Land

    IV. DEATH BY WATER

    Phlebas the Phoenician, a fortnight dead,
    Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell
    And the profit and loss.
                                                        A current under sea
    Picked his bones in whispers. As he rose and fell
    He passed the stages of his age and youth
    Entering the whirlpool.

                                                     Gentile or Jew
    O you who turn the wheel and look to windward,
    Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you.

    —

    MORTE POR ÁGUA
    (Ivan Junqueira)
    Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,
    Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas
    E os lucros e os prejuízos.
    Uma corrente submarina
    Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia
    Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude
    Até que ao torvelinho sucumbiu.

    Gentio ou judeu
    Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,
    Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.