Categoria: crônica

  • Notas sobre o mensalão

    O chamado mensalão tomou proporções maiores do que a própria direita esperava. A condenação por formação de quadrilha, por exemplo, é um disparate. Como diz Zé Dirceu “fui condenado por ser ministro”. Está desproporcional a cena brasileira: o Zé Dirceu e Genuíno condenados, por “domínio do fato”, que no fundo quer dizer, sem provas, e outros como o Maluf, procurado pela Interpol, tirando foto com o Lula.

    A determinante da situação será a postura do PT sobre o mensalão. Duas possibilidades se desenham a partir das condenações. A primeira, é  uma saída eleitoral. Para garantir o crescimento que vem tendo, num primeiro momento, o partido vai calar sobre o assunto, aliás, como vem fazendo. Num segundo momento, poderá assumir um discurso conservador, dizendo que limpou no seu governo o que estava sujo, e que pior são os tucanos que carregam a sujeira no bico! Para mimetizar o tom agitador de Lula.

    A outra possibilidade, é o PT se posicionar contra o Estado, e mesmo que perca boa parte dos votos que lhe resta da classe média, se mobilizará para reformas mais radicais, como a famigerada reforma política, por exemplo. Tudo isso, para não deixar que a direita escreva a história do país como quer.

    A que está em curso é a saída eleitoral. Em recente reunião foi adiada uma carta protesto contra a decisão do Supremo Tribunal Federal. De qualquer forma, a condenação de militantes históricos é o preço que a direita cobra por perder a direção da hegemonia burguesa. Não obstante, do ponto de vista da guerra que a política significa, o PT ainda está na vantagem. Entretanto, a maneira como irão reconstruir a história do Brasil, coloca para o partido questões sérias sobre o que sobrou de sua integridade ética, isto é, se vai as ruas ou venderá seus fundadores, por votos e cargos.

  • Reflexões com um amigo Físico – Parte 1

    Gosto dessa ideia da infinidade circular, uma unidade de contrários cujos elementos se movimentam passando de um extremo ao outro, de forma que a verdade não está no objeto estático, ou na sua fotografia, mas está na compreensão contraditória do seu próprio movimento, e nas determinações desse movimento. Gosto dessa compreensão do movimento, pois é a gênese do pensamento dialético. O exemplo que utilizo nos cursos de formação que ministro, é o do estudo do sapo. Quando numa escola o professor apresenta o sapo no laboratório, o que ele está tomando como matéria de estudo não é o sapo em sua totalidade, mas está estudando um sapo morto. Esse estudo é um passo fundamental para o entendimento do sapo, mas insuficiente para chegarmos a verdade do objeto. É preciso compreender o sapo vivo, o sapo no salto, o sapo coaxando, retirar dele as determinações que o movimentam e que o levam a aparecer de diversas formas, sempre escondendo sua verdade. De outra forma, são as relações que o sapo estabelece com seu meio e sua própria matéria viva em relação a esse meio, que o qualificam e o significam para nós, antes de tudo, como um ser que chamamos sapo.

    A partir dessa compreensão da realidade através da lógica dialética, concebo também que o “bigbang” é apenas um momento no movimento infinito do universo. É a expressão singular de um movimento universal, assim como a galaxia é um particular no movimento iniciado pelo bigbang, e o sistema solar é um momento do movimento da galaxia, assim até a singularidade atômica que espantosamente nos revela os mesmos movimentos anteriores até mesmo nas menores partículas, como você mesmo destacou. O que espantosamente nos revela que a unidade de contrários é uma constante, e nada existe no universo que não esteja em movimento e dentro de uma relação. Justamente por isso, não é possível conceber o bigbang como um início do universo. O próprio raciocínio formal nos mostra que isso não passa de uma marcação arbitrária, que supre uma necessidade falsa de dizer onde começou o universo. Ora, qualquer criança em fase de “porquês” pode perguntar ao cientista afoito de onde veio o “bigbang” e deixá-lo constrangido tendo que recorrer ao campo inseguro da incerteza. Contudo, essa mesma criança não deixaria de perguntar para a lógica dialética qual seria então a origem do bigbang, ou até o limite de sua própria pergunta, qual seja, de onde veio o universo? E talvez a resposta, “ele sempre existiu”, seja para ela tão incompreensível no momento quanto seria para o pensamento formal. Mas é justamente essa a compreensão da infinitude, não só da existência do universo mas do próprio movimento da existência que consiga dar a ela a pedra principal para sair da linearidade que separa sem juntar. Isto é, o movimento sempre esteve em movimento, e o que aparece em um extremo pode virar para o outro, isto é, uma coisa pode virar o seu contrário, e essa é sua verdade.

    Entretanto, diferente de você, não tenho uma compreensão mística do universo. Me coloco ao lado daqueles que negam a crença em um ‘Espírito do Mundo’ ou como você disse ‘um princípio inteligente e absoluto’ como quem nega um falso pressuposto. Sobre esse princípio, ou contra ele, afirmo o próprio humano como parâmetro de si mesmo, isso quer dizer, o humano como parâmetro da própria realidade, afinal a realidade que pronunciamos saí pela forma humana que somos, de nossas palavras, de nossas bocas, o que não nos permite passar para outro ser que não seja nós mesmos. Essa afirmação parece limitada, pois é de fato a constatação de um limite, ou seja, nós mesmos. Contudo, na compreensão sobre o universo e suas determinações essa afirmação pode ser melhor compreendida na extensão do conselho filosófico de Sócrates: “se queres conhecer os homens e os deuses, conhece-te a ti mesmo”. A unidade entre o Eu e o universo está na superação do universo enquanto objeto estático, aparentemente puro para a compreensão, mas, antes de tudo, é preciso elevar o objeto ao próprio estado de criador do Eu, isto é, olhar as relações entre o Eu e seu meio como determinantes de sua existência e concebê-lo também e principalmente como fruto desse meio. Essa contradição entre o Eu que é por si mesmo, e o Eu que é pelo Outro, não deve ser tomada como um erro, mas deve ser tomada como sua verdade, ou como o verdadeiro objeto. Isto quer dizer, é possível agora encontrar o objeto que era o universo objetivado de outra forma. Pois ele se revela como o próprio Eu determinado pelo universo em relação consigo mesmo, ou seja, o Eu que é objeto de si mesmo e pode agora se reconhecer numa totalidade que o faz e é feita por ele. Esse movimento de unidade completa entre o Eu e o Universo, nesse caso, o próprio conhecimento, é indiferente ao um “Espírito do Mundo”, pois a elevação do ser particular ao universal não significa que o encontramos no universal um ser, mas apenas que o ser particular se encontra num universal por ele determinado e que por mais que o determine também somente por ele pode ser alterado.

    Absorvi essas ideias nas leituras filosóficas de Marx, Hegel, Lucáks, Sartre e Adorno. Filósofos que você gostaria de ler, principalmente Hegel, que concebe um “Espírito do Mundo” como uma ideia primordial, muito próximo do que você colocou, “um princípio inteligente e absoluto”. Em outro momento Hegel vai chamá-lo de “Espírito Absoluto”, justamente esse ser que está anterior a tudo e em tudo está, entretanto não se manifesta por si só mas apenas nas particularidades, pois é assim, como manifestação de um espírito absoluto que é o homem. O ser universal personificado, ou a expressão particular do ser universal. Bonito demais essa ideia, mas creio falsa como tentei demonstrar acima.

    Fico contente que esteja ativo no mundo científico, que precisa de pessoas sérias e comprometidas como você.

    No meu canto, estudo, filosofo e me organizo ao lado dos que estão dispostos a alterarem a ordem tão nefasta das coisas. Me emocionei esses dias com o aposentado grego, de 77 anos, que se suicidou em praça pública, pois era a única forma de manter sua dignidade, antes de começar a vasculhar os lixos por comida, como ele mesmo deixou escrito em carta. É sobre essas questões filosóficas e principalmente concretas da luta de classes por uma ordem mais humana do que o capital e seu movimento anti-humano que me debruço.

  • Quando o conteúdo se torna maior que a frase

    Pois de todos os fatos, esse diz por si próprio o estado de coisas a que estamos submetidos. Fala mais alto que as agitações de costume, pois afinal não é agitação alguma, senão uma carta de um suicida. Enquanto tal e dado seu conteúdo exemplar, é expressão autêntica da práxis de uma classe em xeque, da miserável correlação de forças da luta de classes. A qual devemos desde já nos antecipar.

    Eis a carta de Dimitris Christoulas, grego, 77 anos, farmacêutico aposentado, suicidado publicamente na praça Syntagma, semana passada.

    “O governo de Tsolakoglou [referência ao nome que os gregos deram a ocupação nazista] aniquilou todas as minhas possibilidades de sobrevivência, que se baseavam numa pensão bastante digna que eu tinha pago por minha conta, sem nenhuma ajuda do estado, durante 35 anos.
    Considerando que a minha idade avançada não me permite reagir de outra forma (se não fosse isso, se um compatriota grego pegasse numa Kalashnikov [nossa conhecida russa AK-47], eu seria o segundo a fazê-lo e o seguiria), não vejo outra solução além de pôr um fim digno à minha vida antes de me acabar à procura de alimentos nos contentores do lixo para sobreviver.
    Acredito que os jovens sem futuro pegarão um dia nas armas e irão pendurar de cabeça para baixo os traidores deste país na praça Syntagma como os italianos fizeram com Mussolini em 1945.”

  • Ponta pé Inicial

    A palavra vem por aqui também. Evidente, que vem menor que no papel, mas é por falar coisas menores com mais constância que adquirem outra qualidade.